Jornal das Autarquias | Abril 2025 - Nº 210 - I Série

Entrevista ao Presidente da Junta de Freguesia João Antão

Pedro Miguel Pereira Nunes

J.A.- O turismo e o sector primário são valorizados nessa autarquia?
P.J.- Relativamente ao turismo temos a rota do Azeite sendo um circuito que pertence aos Percursos Pedestres da Guarda onde se pode contemplar uma vista de cortar o fôlego a nossa Igreja matriz, sepulturas antropomórficas, lagaretas, fontes de mergulho e os fornos comunitários. Relativamente ao sector primário a grande maioria dos residentes têm a sua horta familiar que está bem enraizada, existem algumas explorações ligadas à pecuária.

J.A- Cada dia que passa, a violência doméstica, tem se tornado um autêntico flagelo. Quais as medidas poderão ser tomadas para que o mesmo seja atenuado?
P.J.- De momento não temos conhecimento de nenhum caso.

J.A.- Esta situação está a tornar-se, quase como um hábito, inclusive nos jovens em situação de namoro. Qual a vossa opinião?
P.J.- Sim, somos confrontados com cada vez mais casos e subida das percentagens na comunicação social. Até mesmo na base, nas escolas primárias o bullying está cada vez mais presente, se esse hábito começa numa idade tão precose penso que o problema está aí. A educação deve passar pelos agregados familiares primeiro, depois a escola têm um papel fundamental e por fim a sociedade estar atenta, para depois no futuro se colherem os frutos e combater este problema.

J.A.- Que recursos financeiros necessitam as populações mais enfraquecidas (a vários níveis) nessa autarquia?
P.J.- Penso que os problemas vêm do cimo da pirâmide, as medidas para a Segurança Social das pensões dos idosos, com reformas muito baixas sempre foram esquecidos, com o aumento do custo de vida, esta classe ficou esquecida. Não estou a falar dos idosos que emigraram ou os que fizerem descontos para a Segurança Social, que têm outros rendimentos superiores à média, refiro-me aos que nunca saíram do país que sempre lutaram com resiliência, não descontaram, eu entendo, mas eram outros tempos e criaram a melhor geração portuguesa, a grande maioria dos pequenos e médios empresários portugueses que são a maior riqueza que temos em termos económicos, sendo estes masacrados diariamente com uma dose de impostos brutal, foram criados por esta geração de idosos que lutaram e lutam diariamente.
Estes que têm pensões tão desniveladas com a média nacional devem ser mais protegidos.
Fala-se da parte Social mas estes sim sofrem porque não têm rendimentos, recursos, casas antigas com pouca qualidade de habitabilidade, dependentes da saúde que está no estado que sabemos, filas e meses para consultas e cirurgias e não têm opção porque estão dependentes do sector público, que simplesmente funciona mal e por fim quando chegam à última etapa da vida os seus rendimentos não chegam para pagar um lar e até aí têm de esperar por um lar ligado à Segurança Social com filas de espera para entrar infindáveis, não os devíamos tratar desta forma. Gente que deu tanto de si, por vezes a troco de nada, fizeram estradas, pontes, escolas, igrejas, murros de suporte, tantas outras coisas para melhorar as condições das suas terras, homens e mulheres que nos deviam orgulhar pela sua perseverança, coragem, força e fé.

J.A.- Como reagiu essa autarquia com a chegada de imigrantes, mesmo depois terem sido tomadas novas medidas para regular a sua entrada no Pais. Qual a Vossa opinião sobre este assunto?
P.J.- Temos uma comunidade de cidadãos/as nepaleses a viver numa anexa da Freguesia, já vêm para cá à oito anos onde trabalham numa exploração agrícola num período de sazonalidade. Nunca tivemos problemas até à data, sempre foram cordiais e a convivência com os residentes é pacata.
No passado recente temos tido a procura da compra de habitações por outro tipo de imigração, esta permanente de novos habitantes vindos de países do centro da Europa e de países da América do Norte e Brasil. Aqui a convivência também é muito cordial e de entre ajuda com a população residente. Quem vêm por bem sempre será bem vindo e bem recebido.

J.A.- O que pensa sobre as medidas que o Governo quer implementar sobre o parque da habitacional?
P.J.- Uma boa questão, penso que nas autarquias de maior dimensão o caminho está a ser feito, mas o PPR está muito atrasado, esta pasta devia ser célere porque é a última oportunidade que temos, e este comboio só passa uma vez. Mas do que tenho visto, penso que é transversal a todos os municípios que estão a fazer uma grande aposta para tentar minimizar este problema da habitação em Portugal.

J.A.- Os preços dos bens alimentares e outros, cada vez estão mais caros. Que medidas acha que o Governo deve tomar?
P.J.- O problema vêm do passado com as Reformas da PAC, Portugal tinha um sector primário e secundário forte, o processo foi um fracasso e quando podíamos ter potenciado a produção de média/grande escala em Portugal os fundos foram mal aplicados. Perdemos o Celeiro do Alentejo que na minha opinião foi o maior erro no sector primário. A nova procura para residir nas freguesias mais rurais que já não me lembrava de ver à anos, pode ajudar com esta nova ligação à terra, a tal horta familiar. Não me recondo onde li um estudo recente, onde a necessidade de profissionais para o sector agrícola e empregabilidade estavam no Top5 da procura para 2030, pode ser que aí mude o paradigma e que o interior e as suas terras sejam valorizadas de novo, sem gente cá e a produzir vamos estar sempre reféns da importação. A lei da oferta e da procura pode ser que funcione a nosso favor.
Somos uma zona de pedras e barrocos mas as giestas crescem com vivacidade no meios deles, ou seja se elas nascem é porque as terras são férteis, as terras têm e de ser aproveitadas.
A abolição das portagens nas ex-Scuts, foi uma grande medida para a nossa região e para o Interior.
Penso que uma medida que poderia ajudar bastante, visto o Inverno ser bastante rigoroso nesta zona Norte/Centro do país seria baixar a taxa da fatura elétrica e IVA para o mínimo possível, nos meses de novembro, dezembro, janeiro e fevereiro, onde estas temperaturas são extremas, nos Distritos de Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda e Castelo Branco. Sendo que nós também descontamos para n serviços do litoral que não usufruímos, na minha ótica seria mais do que justo este medida. Todos os anos somos confrontados com notícias de mortes por intoxicação, casas incendiadas, principamente nestas regiões no período de Inverno, e nunca foi feito nada para acabar com este flagelo, acho que seria a solução.

J.A.- Com as tempestades ocorridas neste Inverno, como reagir com as inundações resultante das derrocadas provocadas pela degradação dos terrenos?
P.J.- Tentar adaptar medidas de solidificação dos solos com a vegetação ardida no local, e reflorestar o mais rápido possível, sem árvores, plantas e o próprio ecossistema sabemos que quando vierem as enxurradas levam tudo o que encontrarem. Depois apoios para tentar devolver tudo o que o próprio incêndio e as enxurradas danificaram.
Pavimento, Sinalização, Recuperações de murros, infelizmente habitações, etc. Sabemos que são centenas de milhares de euros que o país não têm.
Mas sabemos que os incêndios vão acontecer somos um clima mediterrâneo é propício a que criminosos alimentados por uma máquina super lucrativa que nas sombras, sem escrúpulos da desgraça alheia nos metam nesta situação ano após ano.
Depois podíamos fazer mosaicos florestais, corta fogos que ajudassem no combate para os incêndios não tomarem as proporções que tomam. Se tivermos de cortar 2000 3000 árvores para salvarmos 10000 que se corte, porque se não o fizermos aí sim vamos perder as 13000 mil. Ficava mais barato do que os milhões que se gastam todos os anos em recursos e bens perdidos, infelizmente também perdemos vivas e ninguém têm a coragem de mudar isto, enfim.
Na minha opinião as autarquias e o ICNF deviam ter um papel fundamental neste processo, este último devia deixar de parte tanta niquice e burocracia e aplicar medidas concretas no terreno.
Não posso aceitar que pessoas fiquem sem as suas casas, máquinas agrícolas, carros, terrenos, árvores de fruto que lutaram a vida toda, batalharam para construir e vir esta desgraça e ficarem sem nada. É como se fosse uma morte emocional e psicológica.  Infelizmente só se fala e pensamos na desgraça quando já estamos em período de incêndios, durante o resto do ano nada é planeado nem executado NADA, como é possível.

J.A.- Que problemas mais prementes necessitam de intervenção rápida nessa autarquia?
P.J.- Penso que com pessoas tudo se consegue com amor à freguesia e resiliência. Atrair gente para a terra isso é o principal o resto com mais ou menos recursos vai-se construindo.

J.A.-Como está a situação financeira da autarquia neste mandato?
P.J.- No geral penso que foi feita uma boa gestão, temos um bom balão financeiro mas que será investido em duas obras à muito anciadas pela população. Para autarquias pequenas com poucos recursos financeiros para fazer obras de maior dimensão é necessário poupar durante os três primeiros anos do mandato para no último fazer obras de maior dimensão, pois os valores do FFF basicamente estão destinados às despesas correntes e a obras de menor dimensão, é a realidade infelizmente.

J.A.- Que problemas mais prementes necessitam de intervenção rápida nessa autarquia?
P.J.- Comecei em 2013 na vida autárquica na Assembleia de Freguesia, 2017 como Secretário da Junta de Freguesia e agora após 2021 como Presidente de Junta, já vi três Presidentes de Câmara em funções, não me recordo de uma proximidade tão grande às Freguesias, e obras realizadas, penso que a Câmara Municipal da Guarda está muito bem representada, pegando no exemplo de descentralização localmente, com os apoios que têm concedidos de maneira justa e igualitária é de louvar, a nível nacional devia ser um exemplo.
A palavra Descentralização é muito bonita e badalada mas na prática é um chavão que o Interior têm de engolir diariamente.

J.A.-Que mensagem quer transmitir à população da sua autarquia?
P.J.- Eles sabem que eu luto e tento fazer o meu melhor por eles todos os dias, junto com a minha equipa diariamente. Trabalho, Empenho e Proximidade e Acima de tudo cumprir os compromissos assumidos.
Sou o autarca mais jovem do concelho da Guarda candidatei-me com o objectivo da minha Freguesia não desaparecer, se consolidar e crescer e é o que pretendo fazer.
Vou lutar por eles, pela minha Freguesia e pela minha cidade com todas as minhas forças, porque pensar em ser autarca é uma coisa, mas ser autarca é outra completamente diferente.

J.A.- O Jornal das Autarquias existe desde 2007! Quer deixar-nos a sua opinião sobre o trabalho do mesmo?
P.J.- Sou sincero não conhecia, mas ainda bem que existem para dar vós aos autarcas desde a maior até à mais pequena e recôndita freguesia achei a ideia fantástica.
Muito obrigado pela oportunidade.

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