JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Dezembro 2017 - Nº 122 - I Série - Aveiro e Viseu

Aveiro e Viseu

Carlos André Teles de Carvalho

Entrevista do Presidente da Câmara Municipal de Tabuaço

Carlos André Teles de Carvalho

J.A.- Tendo havido alteração nos resultados eleitorais autárquicas de 2017, o que pensa sobre isso?
P.C.-Existem dois factores fundamentais que importa salientar relativamente às eleições do passado dia 01 de Outubro. Em primeiro lugar o facto de termos tido uma taxa de afluência às urnas superior a 72% o que nos transformou no concelho do distrito de Viseu com menor taxa de abstenção situação que, acreditamos, até a nível nacional deve ter colocado Tabuaço no top dos concelhos com maior percentagem e votantes. Este registo é bem significativo da consciência cívica dos eleitores do nosso concelho e da importância com que o povo Tabuacense encara os processos eleitorais pelo impacto directo que têm na sua existência quotidiana.
Em segundo lugar salientar a expressão do resultado alcançado pelas listas por nós encabeçadas, resultado que não nos faz embandeirar em arco. Antes pelo contrário. Cria um novo impulso, reforça a nossa motivação e legitimidade, mas transmite-nos ainda mais responsabilidade que a que tínhamos no passado. Reforça o sentido absoluto de entrega à causa pública e uma necessidade de compromisso total para com a nossa população a um nível ainda mais profundo que o que defendemos durante a campanha eleitoral.

J.A.-Qual a sua Opinião sobre o OE para 2018?
P.C.-Encontramo-nos ainda um pouco na expectativa no sentido de perceber qual o real impacto que algumas medidas irão ter na gestão corrente dos Municípios.
De saudar a eliminação da aplicação da Lei dos Compromisso e Pagamentos em Atraso mas ao mesmo tempo lamentar o facto de apenas acontecer nos Municípios que não ultrapassem o limite do endividamento, situação que não terá efeitos práticos atendendo a que as Câmaras que não cumprem esta lei, extremamente restritiva, são as que se encontram em dificuldades financeiras e com o seu limite de endividamento ultrapassado.
Salientar as medidas tomadas no sentido de alargar o prazo máximo para acordos de regularização de dívidas, nomeadamente de sistemas multimunicipais, esperando que esta medida seja alargada a outras entidades, bem como aprovar a possibilidade de contratualizar operações que permitam substituir\consolidar a dívida comercial.

J.A.- Em relação ao relatório sobre os incêndios de Pedrogão Grande, qual a sua opinião?
P.C.-O que nos parece, após as tragédias que aconteceram em Portugal nos últimos meses no que aos incêndios diz respeito, é que nada funcionou e o dispositivo montado não conseguiu dar resposta aos fenómenos que, infelizmente, surgiram.
Importa pois neste momento, e de imediato, alterar completamente o paradigma de como encaramos os fogos florestais e a sua prevenção\combate. Não sou uma autoridade na matéria, muito longe disso, mas batemos no fundo pelo que temos que neste momento permitir a criação de equipas de trabalho devidamente certificadas da sua competência e permitir que elaborem uma estratégia, no sentido de alterar a forma como encaramos o sector florestal e a prevenção de incêndios, completamente independente e isenta de interesses comerciais e políticos porque não podemos de forma alguma admitir que a realidade vivenciada este ano volte a acontecer.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza e, estando esse concelho inserido num dos distritos considerados de maior carência económica, como está essa autarquia a gerir esse problema?
P.C.-Infelizmente em regiões com realidade económicas similares a Tabuaço o encerramento de qualquer unidade, por mais pequena que seja, reflecte de imediato um aumento exponencial do índice de desemprego.
Como é lógico as autarquias devem funcionar no sentido de criar as estratégias que permitam aos nossos sectores económicos gerar condições que no dia de amanhã lhes garantam mais sustentabilidade e, consequentemente, capacidade de gerar mais postos de trabalho e empregos.
No nosso caso concreto tentamos através do apoio à nossa realidade agrícola, agro-industrial, promoção e divulgação de Tabuaço enquanto destino turístico e o apoio constante à lógica empreendedora e empresarial contribuir para que consigamos combater essa realidade que é transversal a todo o nosso país.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?
P.C.-Como é lógico todos e quaisquer tipos de violência são recrimináveis e, em sociedades como a que entendemos que deve ser a nossa, de abolir.
A verdade é que a violência doméstica foi durante décadas e décadas, socialmente tolerada, sendo que hoje em dia, e felizmente, a sensibilização é cada vez maior, o que aliado a factores como a menor indiferença da sociedade ou a independência financeira da vítima, leva a que assistamos a um acréscimo no número de queixas e relatos o que contraria o que num passado, ainda recente, acontecia.
Parece-me, e apesar de muito haver para fazer, que os passos mais importantes estão já dados: a cada vez maior consciencialização do problema e o facto de, cada vez mais, os números estatísticos serem mais próximos do número efectivo. Falta agora que essa consciencialização se transforme em alterações comportamentais e que tenhamos também uma moldura penal que seja consentânea com a gravidade das ocorrências para possamos caminhar no sentido ideal de concretizarmos uma sociedade cada vez menos violenta.

J.A-O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade, entre a juventude?
P.C.-Esse é um fenómeno que, pessoalmente, me assusta ainda mais por, no meu entender reflectir uma realidade pior que a de há uns anos atrás. O bullying sempre existiu, de há décadas a esta parte, e alguns comportamentos mais violentos também sempre fizeram parte, apesar de mais esporádicos, da realidade juvenil.
O facto de as redes sociais registarem tudo o que acontece leva a que, nos dias de hoje, qualquer fenómeno seja empolado, replicado e exagerado. Agora lamentável e assustador é o facto de assistirmos com uma frequência incompreensível a episódios de enorme violência e confronto entre jovens, de grupos a serem violentos entre eles e com outras pessoas, e ainda pior a observarmos a indiferença de quem assiste e assobia para o lado.
Precisamos claramente de trazer este assunto para o centro do debate da nossa opinião pública para que consigamos perceber esta realidade e de que forma podemos contribuir para a diminuir e erradicar.

J.A.-Que apoio presta a autarquia aos mais idosos?
P.C.-O Município tem como um dos seus principais pilares de actuação a Acção Social como estratégia agregadora e de inclusão.
Como base neste princípio temos várias formas de apoio aos nossos seniores. Temos projectos de voluntariado que permitem a visita, e acompanhamento, aos idosos mais isolados, não sendo que esse isolamento seja necessariamente geográfico. Temos apoios à alimentação e à renda nos casos dos agregados mais carenciados. Existe uma redução de 50% em todos os transportes públicos com origem e destino dentro do nosso território para pessoas com mais de 65 anos e\ou portadoras de deficiência. Desenvolvemos ainda várias actividades de lazer\convívio ao longo do ano no sentido de minimizar o afastamento e isolamento que é característica, infelizmente da nossa realidade, sendo que a criação da Universidade Sénior é um dos projectos que mais nos orgulha.

J.A.-Qual o maior problema com que esse concelho se debate?
P.C.-O maior problema continua a ser, sem dúvida, a constante emigração que se vive de há décadas a esta parte por não sermos capazes de criar as condições e capacidade empregadora para segurar as pessoas.
Neste momento este flagelo tem um impacto ainda mais acentuado por se tratar da saída, em grande número, de jovens com formação superior cuja permanência poderia permitir a diminuição das assimetrias que existem entre a nossa região e o litoral do país criadas por sucessivos governos centralizadores e que votaram territórios como Tabuaço a um, quase, total esquecimento.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.C.-Anda tudo à volta da situação financeira. A sustentabilidade económica, a criação de valor acrescentado nos produtos únicos que aqui nascem, a descriminação positiva que tem que ser criada para quem quer subsistir e investir nestes territórios, acessos a cuidados de saúde, entre outros.
E continuamos a ter um enorme problema que são as acessibilidades e forma de aqui chegar. Basta lembrar que em Tabuaço, durante mais de 100 de República nem um metro de estrada aqui foi criado. Apenas requalificações!

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro do concelho?
P.C.-Apesar do cenário atrás descrito há uma série de factores que nos faz confiar no futuro do nosso território.
Acreditamos no crescente potencial turístico da nossa região que vê de ano para ano aumentar o número de turistas que chega ao Douro, Património Mundial, e consequentemente a Tabuaço onde podem desfrutar de uma Natureza com paisagens deslumbrantes que vão desde o coração do Douro até à beleza dos montes e serras beirãs, dos nossos rios, desde os afluentes Tedo, Távora e Torto até ao majestoso Douro e da nossa arquitectura composta pelas quintas vinhateiras e pelo património histórico e religioso.
A nossa actual realidade contempla já uma oferta hoteleira e de restauração, ao nível de quantidade e de qualidade que, aliada a uma cada vez maior actividade cultural, poderá tornar Tabuaço como destino de referência do Universo turístico Duriense.
A qualidade da nossa gastronomia, a cereja, a castanha, a baga de sabugueiro, o melhor bolo-rei do país, o azeite e os nossos vinhos. Importa neste campo, para além da excelência do Vinho do Porto, salientar o enorme salto qualitativo no que aos Vinhos DOC diz respeito. E resultado desta nova realidade é a de que os nossos vinhos, os vinhos de Tabuaço, são hoje sobejamente conhecidos por todo o Mundo.
Aguardamos, com esperança, o estabelecimento do sector mineiro através da extracção de tungsténio com um projecto na ordem de investimento dos 100 000 000 € (que poderá criar cerca de 1000 empregos durante a fase de construção da mina e posteriormente cerca de 200 na fase da exploração). Este projecto terminou recentemente a fase de prospecção tendo obtido resultados muito acima dos esperados e que por si só já justificavam a concretização do investimento.
O sector da energias alternativas através da produção de energia eólica, onde já temos um parque considerável e consideramos existir potencial para o aumentar.
O sector florestal que consideramos estar claramente subaproveitado tendo o nosso município condições excepcionais para a optimização destes recursos.
Importa também referir que para que todas estas qualidades únicas se consigam aproveitar no seu completo potencial é fundamental que exista uma mudança de paradigma na relação entre os organismos públicos e os Municípios! Nunca como hoje existiu a consciência política de que apenas pensando, criando estratégias e sinergias comuns, decidindo em função de um território único e fomentando a solidariedade e coesão desse mesmo Universo, conseguiremos ser competitivos e elevar a nossa região ao patamar que as suas condições e potencialidades naturais exigem!
Mas aqui mais uma vez frisamos! Tem que haver por parte de quem decide a consciência de que existem ainda dois países no que toca à competitividade e que correm a velocidades distintas! E nós não podemos perder mais nenhuma oportunidade para efectuar os investimentos certos nas zonas de baixa densidade e garantir que parte desses fundos, esperamos nós a maior parte deles, sejam canalizados para a nossa região e para regiões com dificuldades.
Por estas, e por tantas mais razões, não esperem de nós qualquer tipo de complacência político partidária. Demos provas ao longo destes quatro anos, quer com o actual governo socialista quer com o governo da coligação, de que o que nos move é sempre o superior interesse dos Tabuacenses. E podem de nós esperar uma intransigência ainda maior daqui para a frente. Não ser contra só por se do contra! Mas exigir respeito! Exigir Consideração! Exigir justiça! É hora de dizer basta! Não podemos continuar a ser portugueses de segunda! Aqui o que se faz, faz-se tão bem ou melhor que no resto do nosso País. Permitam-nos apenas é que as condições em que o fazemos sejam as mesmas de outros territórios claramente bafejado pelo centralismo cultural de que padecemos.
É hora de deixarmos de ser constantemente atropelados pelos sucessivos governos centralizadores que mais não fazem que deixar o interior do nosso país ao abandono e a quem cá teima em subsistir, em resistir, em fazer milagres diariamente, entregue a si próprios!
Se nos permitirem essas condições acreditamos com toda a convicção que o nosso futuro será incomparavelmente mais risonho que o que hoje perspectivamos.

J.A.-Como é a situação financeira da autarquia?.
P.C.-Quando em 2013 chegamos à Câmara, a dívida do Município ascendia a quase 16 milhões de euros sendo houve uma redução de cerca de 4 milhões ao longo dos últimos 4 anos pelo que nos orgulha o rigor e o empenho, dentro de um quadro extremamente difícil, que foi colocado em prática.
No entanto ainda é uma situação constrangedora e que cria enormes condicionalismos à actividade diária do Município principalmente porque existe ainda um enorme valor de dívida comercial (a terceiros), que se arrasta de há anos a esta parte, que urge consolidar e ainda não foi possível por não existirem mecanismos nos quais a Câmara de Tabuaço se integre, porque estamos felizmente e fruto do trabalho levado a cabo estes últimos anos fora do âmbito do Fundo de Apoio Municipal (FAM), situação que esperamos que o próximo orçamento de estado preveja e nos permita solucionar.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?

P.C.-A Câmara Municipal tem protocolos assinados, com todas as Juntas de Freguesia e em moldes com elas acordados, que prevêem a transferência de verbas mensais num valor global que, em 2018, ascenderá aos 250 000 €.
Para além deste apoio levamos a cabo inúmeras obras de proximidade, que permitem diminuir e eliminar as carências e condicionalismos sentidos pelas populações, numa estratégia concertada com cada uma das Juntas de Freguesia

J.A.-Que mensagem quer enviar à população do seu concelho?
P.C.-Esperança.
Pois são as nossas gentes o principal motivo que nos faz acreditar em Tabuaço! As nossas pessoas! A sua capacidade de resistência, de resiliência, de diariamente, e contra condições desfavoráveis, persistir, lutar, com espírito de sacrifício e empenho para continuar a fazer deste pequeno território o nosso modo de vida, o nosso passado, presente, futuro, a nossa casa!
E de que, todos os dias, iremos fazer mais para que o amanhã seja ligeiramente melhor que hoje. Porque sempre defendemos que é apenas pelas, e para, as pessoas que tem sentido exercer o serviço cívico que os cargos que hoje representamos encerram.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.C.-Todos nós temos a noção que quando decidimos enveredar por uma vida dedicada à causa pública isso nos vai roubar muito do tempo que passamos com quem está mais perto de nós. Mas a verdade é que é muito pior do que aquilo que se imagina.
Hoje em dia o tempo parece que cada vez passa mais rápido e é extremamente complicado equilibrar a balança entre aquilo que é o nosso tempo pessoal e o nosso tempo profissional, ainda para mais quando em realidades como as dos nossos concelhos, e felizmente que assim é, a linha entre os dois praticamente não existe e nunca deixamos de ser o presidente da Câmara assim como nunca deixamos de ser a pessoa, com claro desequilíbrio para a vida pessoal.
J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.C.-Agradecer ao Jornal das Autarquias a oportunidade que nos dá, em pé de igualdade, de aqui nos podermos expressar e de dar a conhecer um pouco daquilo que é a nossa realidade.
Que continueis com isenção, competência, sentido crítico e principalmente com equidade regional, da mesma forma que o tendes feito até aqui, a dar voz a todas as realidades locais, independentemente de elas consubstanciarem milhões de eleitores ou, como connosco acontece, apenas alguns milhares.
Porque apenas com esta forma de encarar o nosso País e quem o compõe, nos sentiremos todos Portugueses de igual condição.
Muito obrigado.

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