Jornal das Autarquias | Maio 2026 - Nº 223 - I Série

Entrevista ao Presidente da Junta de Freguesia de Serzedo

Carlos Manuel Ribeiro Ferreira

Carlos Manuel Ribeiro Ferreira

J.A.- O turismo e o sector primário são valorizados nessa autarquia?
P.F.-Sim. Serzedo mantém uma ligação identitária forte à terra, e o setor primário continua a ser um pilar de subsistência e preservação da paisagem. No turismo, o nosso foco é o património e as tradições, investindo em eventos como o Serzedo Cultural e o Mercadinho de Natal para atrair visitantes e dinamizar o comércio local.

J.A- Cada dia que passa, a violência doméstica, tem se tornado um autêntico flagelo. Quais as medidas poderão ser tomadas para que o mesmo seja atenuado?
P.F.-Na Junta de Freguesia, atuamos através da proximidade. A nossa Técnica de Ação Social trabalha diariamente na sinalização e acompanhamento de casos. Acreditamos que a rede de vizinhança é essencial, e por isso promovemos o atendimento técnico descentralizado, garantindo que as vítimas em Serzedo tenham um porto de abrigo seguro e confidencial para denunciar e procurar ajuda.

J.A.- Esta situação está a tornar-se, quase como um hábito, inclusive nos jovens em situação de namoro. Qual a vossa opinião?
P.F.-É uma realidade preocupante que exige intervenção precoce. Através do Conselho Municipal da Juventude e do contacto com as nossas escolas, defendemos que a sensibilização deve começar cedo. Não podemos permitir que o controlo e a violência sejam confundidos com afeto. A Junta apoia todas as iniciativas que promovam a literacia emocional entre os nossos jovens.

J.A.- Que recursos financeiros necessitam as populações mais enfraquecidas (a vários níveis) nessa autarquia?
P.F.-As necessidades são transversais, mas o apoio no acesso a bens essenciais, medicamentos e habitação é prioritário. Temos reforçado protocolos (como o Banco de Fraldas e parcerias com empresas locais) e aprovado apoios diretos em sede de executivo para situações de emergência social, mas é necessário um reforço de fundos para fazer face ao aumento do custo de vida.

J.A.- Como reagiu essa autarquia com a chegada de imigrantes, mesmo depois terem sido tomadas novas medidas para regular a sua entrada no Pais. Qual a Vossa opinião sobre este assunto?
P.F.- Serzedo é uma comunidade acolhedora. Recebemos todos os que vêm para trabalhar e contribuir para a nossa economia com dignidade. A nossa preocupação foca-se na integração plena, garantindo acesso à saúde e educação e na habitação digna, para evitar situações de exclusão ou precariedade.

J.A.- O que pensa sobre as medidas que o Governo quer implementar sobre o parque da habitacional?
P.F.-A habitação é um problema grave no país. As medidas devem passar por incentivos reais à reabilitação e por facilitar o acesso dos jovens à habitação na sua própria freguesia. Esperamos que as políticas nacionais se traduzam em soluções concretas no terreno, reduzindo a pressão imobiliária que afasta as famílias da nossa vila.

J.A.- Os preços dos bens alimentares e outros, cada vez estão mais caros. Que medidas acha que o Governo deve tomar?
P.F.-O Governo deve atuar na fiscalização das margens de lucro e na redução de impostos sobre bens de primeira necessidade. A nível local, a Junta tenta mitigar este impacto reforçando o apoio alimentar e social, mas as soluções estruturais têm de ser macroeconómicas.

J.A.- Com as tempestades ocorridas neste Inverno, como reagir com as inundações resultante das derrocadas provocadas pela degradação dos terrenos?
P.F.-A nossa resposta tem sido imediata no terreno. Investimos na limpeza de valetas e linhas de água e na monitorização de terrenos com risco de derrocada. A manutenção preventiva é o nosso foco, mas perante eventos extremos, a prioridade da Junta é a segurança das pessoas e a rápida reposição da circulação nas vias afetadas

J.A.- Que problemas mais prementes necessitam de intervenção rápida nessa autarquia?
P.F.-Destacamos a gestão dos impactos da Linha de Alta Velocidade (LAV), que afetará habitações e empresas em Serzedo, e a necessidade de novos espaços para a cultura e o desporto . A coesão social e a modernização dos serviços de proximidade são também metas constantes

J.A.-Como está a situação financeira da autarquia neste mandato?
P.F.-A situação financeira atual é de um rigor extremo e de gestão cautelosa. É importante referir que o processo de desagregação trouxe desafios estruturais significativos. Atualmente, operamos com um rácio entre despesas e receitas bastante inferior ao que desejávamos, o que nos obriga a uma priorização absoluta de gastos.
Esta nova realidade pós-desagregação significa que cada euro investido tem de ser ponderado ao detalhe. O nosso foco tem sido manter o equilíbrio das contas, garantindo que os serviços essenciais à população não sofrem retrocessos, enquanto procuramos novas formas de otimizar os recursos próprios e captar apoios que permitam dar folga ao orçamento da freguesia. É um mandato de resistência e de construção de uma base financeira sustentável para o futuro de Serzedo como vila autónoma.

J.A.-Qual o apoio que recebem da câmara municipal as juntas de freguesia?
P.F.-Mantemos uma relação de colaboração institucional com a Câmara Municipal de Gaia. O apoio traduz-se em contratos de delegação de competências que nos permitem intervir nas escolas e vias públicas. No entanto, reivindicamos sempre que o reforço financeiro acompanhe o aumento das responsabilidades que as Juntas assumem.

J.A.- O Jornal das Autarquias existe desde 2007! Quer deixar-nos a sua opinião sobre o trabalho do mesmo?
P.F.-É um órgão de comunicação fundamental para dar voz ao poder local. O vosso trabalho permite que as populações conheçam o que se faz "dentro de portas" nas autarquias, promovendo a transparência e a valorização do trabalho de proximidade que só uma Junta de Freguesia consegue fazer. Parabéns pelo vosso percurso.

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