JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Outubro 2018 - Nº 132 - I Série - Vila Franca de Xira, Azambuja, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço

Vila Franca de Xira, Azambuja, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço

Entrevista ao Presidente da junta de freguesia de Sapataria

Rui Manuel Francisco Ferreira

J.A.- Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J. – Sendo esta uma freguesia com um passado muito ligado à agricultura, tendo mesmo a maioria das aldeias maiores nascido em torno de quintas, e tendo sido esta atividade o foco maior de emprego durante muitas gerações, o setor primário tem, necessariamente, de ser valorizado no panorama local. De resto, a revitalização de terrenos é justamente uma das preocupações deste executivo. Em relação ao turismo, o principal foco histórico da freguesia está relacionado com as invasões francesas, encontrando-se aqui dois quartéis-generais de oficiais britânicos. Todavia, sendo ambos propriedades particulares, e não existindo ainda estruturas de apoio à divulgação e operacionalização do valor histórico a nível da freguesia, não é, por agora, o alvo mais importante do trabalho desenvolvido, embora esteja nos horizontes a ponderação sobre a forma de aproveitar melhor o valor turístico deste património e da sua história.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza, como está essa freguesia a gerir esse problema?
P.J. – Felizmente, os efeitos da onda de desemprego que assolou, não só o nosso país, como muitos outros a nível da Europa, parecem estar a ser ultrapassados na nossa freguesia, ainda que existam ainda muitos casos de famílias a sentir dificuldades. Temos tentado ajudar a nossa população, por exemplo, no apoio às famílias através da oferta de kits escolares com materiais para os alunos, no apoio a organizações locais de intervenção social ou na sinalização e triagem de situações de carência social mais preocupantes, para o desenvolvimento de ações conjuntas com a Câmara Municipal.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?
P.J. – Tem sido um aspeto que percetivelmente tem vindo a alastrar na nossa sociedade ao longo dos anos e que, apesar de atualmente ser mais documentada, já tem raízes antigas, que bem conhecemos até no nosso meio rural. Julgo que os fatores acima abordados do desemprego e da pobreza, entre outras questões sociais, estão quase sempre associados à questão da violência doméstica e o seu aumento nos últimos anos, traduz-se, de forma correspondente, a um aumento dos casos de violência doméstica. Além da formação pessoal de cada cidadão, os problemas sociais e as preocupações deles resultantes, a que cada pessoa possa estar sujeito, irão sempre gerar instabilidade e poderão gerar ou agravar comportamentos violentos que apesar de inaceitáveis continuam a surgir.

J.A.- A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento uma infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação
P.J. – Sendo nós uma freguesia rural, com escolas relativamente pequenas que permitem um tipo de acompanhamento mais individualizado e onde muitas crianças ainda são apoiadas pelas famílias (senão pelos pais, pelos avós), acabamos por não sentir muito esse tipo de problema. Naturalmente há registo de casos reais pontuais de delinquência, mas numa altura em que o fenómeno do bullying atingiu um nível de mediatização elevad, correndo-se o risco de cair em exageros, julgo que podemos dizer que se contabilizam alguns casos concretos em meio escolar e algumas situações de vandalismo, mas estão longe de constituir números alarmantes. De qualquer forma, penso que o surgir da dita realidade se prende com as exigências e ritmo da nossa atual sociedade, em que devido às dificuldades económicas assistimos a uma realidade que é como uma moeda: numa face o aumento do desemprego e noutra o aumento de exigência, para quem manteve o seu trabalho. Como consequência, gerou-se, por um lado, a referida instabilidade familiar por falta de condições económicas e psicológicas e, por outro, gerou-se o stress, a exaustão e indisponibilidade – em qualquer um destes cenários criam-se as condições perfeitas para as crianças e os jovens crescerem com pouco acompanhamento e muita informação disponível (nem sempre adequada ao seu nível etário e com a qual não sabem lidar), ficando expostos a situações propícias ao desenvolvimento de comportamentos delinquentes.

J.A-O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J. – Julgo que a violência gratuita que vivemos na nossa sociedade e onde se encaixam os temas da violência doméstica e a delinquência infantil, são resultado dos problemas sociais que temos vivenciado desde o rebentar da crise económica, pois não tivemos capacidade de resposta nem de adaptação às exigências súbitas de um novo cenário que se instalou e que exigiu grandes sacrifícios na tentativa de inverter rapidamente a situação. A par dessa crise, foi-se agudizando uma crise de valores decorrente da evolução de uma sociedade informada mas nem sempre formada para lidar com essa informação adequadamente, o que muito tem contribuído para a agravar dessa violência.

J.A.- Estando a população cada vez mais envelhecida, e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J. – No que respeita às dificuldades financeiras de algumas famílias ou residentes, tentamos fazer face às mesmas, como disse anteriormente, através do apoio a organizações locais de intervenção social e do desenvolvimento de ações concertadas com a Câmara Municipal. Relativamente ao apoio familiar da população mais idosa, também tentamos adequar respostas conjuntamente com o município e estamos a tentar delinear uma resposta bem estruturada, através da criação de um espaço que possa oferecer um serviço com a qualidade que os nossos fregueses merecem e que vá de encontro às suas necessidades, sendo esta uma das carências identificadas na freguesia.

J.A.-Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J. – Independentemente das dificuldades específicas a que freguesia tenha para dar resposta, sinto que o maior problema com que o executivo da freguesia se debate é mesmo a diversidade sociocultural e económica da população residente. Se tradicionalmente esta é uma freguesia rural, com muitas pequenas aldeias a serem compostas por uma população mais idosa que trabalhava na agricultura e que sofrem agora de algum isolamento, existem depois aldeias maiores compostas por moradores mais jovens que para ali se mudaram, assim como muitas famílias que vieram para cá morar, na altura subsequente à abertura da A8, em que a freguesia se tornou uma espécie de pequeno subúrbio de Lisboa. Nesses lugares a maioria das pessoas trabalha fora da freguesia e até mesmo do concelho e as suas exigências já se prendem com um nível de vida diferente, quer pela dinâmica de emprego e familiar, quer pelo nível cultural. Esta mescla de necessidades numa só realidade é um desafio difícil de dar reposta, não só pela diversidade de solicitações como, em certos casos, também por desconhecimento da realidade da freguesia e seus recursos, sendo que todos devem ter igual direito a ver as suas necessidades satisfeitas.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J. – Além da necessidade de uma estrutura que dê resposta à comunidade sénior, com a criação de uma creche, há trabalho a fazer em termos de recuperação, reorganização e melhoramento de espaços públicos, nomeadamente em termos de espaços verdes, recolha de resíduos e zonas pedonais, que são aspetos de base antes de se poder planear outro tipo de intervenção mais profunda, como ao nível da criação de uma creche para dar resposta às famílias com crianças de idade mais baixa.

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro da freguesia?
P.J. – Não só enquanto presidente, mas enquanto morador, as minhas perspetivas para o futuro da freguesia são as melhores, atendendo a que é uma das mais pequenas do país, mas pelas suas caraterísticas geográficas e estruturas viárias, tem também um enorme potencial que se quer aproveitado e melhorado. Espero que os planos que o executivo tem para este mandato possam ser implementados, e assim podermos dar sempre mais um passo em frente relativamente ao desenvolvimento da freguesia, mas de uma forma sustentada, que permita corresponder ao máximo às solicitações dos moradores, sem hipotecar a (boa) qualidade de vida que temos.

J.A.-Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J. – Gosto sempre de lembrar que a comunidade da nossa freguesia está toda ela bem viva. Viva no sentido de se chegar à frente na hora de se envolver em iniciativas, de nunca virar a cara ao trabalho, se ele garantir que melhores coisas virão para quem cá vive ou nos visita e o executivo da freguesia, como não podia deixar de ser, tenta corresponder exatamente em conformidade com este espírito. Pode parecer pouco, mas na verdade, esta forma de estar e este espírito que revelam a vitalidade de uma comunidade é talvez o melhor indicador de que vale a pena olhar para a Freguesia de Sapataria e de nela investir, em termos económicos, empresariais, políticos e até mesmo familiares, se pensarmos em como é um bom local para escolher viver, pelo seu tecido humano, pela sua localização e pelos seus recursos.

J.A.-Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J. – Como qualquer autarca, gostaria de ter sempre mais recursos financeiros para empregar e melhorar a nossa freguesia, mas temos uma situação financeira estável, adequada a garantir as necessidades básicas e a poder ir preparando algumas intervenções de maior envergadura.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?
P.J. – Habitualmente o apoio económico é discutido com a junta e delineado de acordo com a delegação de competências assumida, mas na verdade o apoio estende-se para além deste aspeto, uma vez que a articulação entre câmara e junta é um fator importante que é assumido por ambos os órgãos e que permite, muita vezes, respostas em cooperação que levam a atingir objetivos de uma forma mais expedita e eficaz do que se cada órgão autárquico tentasse resolver problemas por si só.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J. – Que tenham confiança no trabalho do executivo eleito, podendo estar certa do compromisso assumido de trabalhar pelo melhor para a freguesia. Que se lembrem que somos moradores e membros da comunidade da freguesia, como quaisquer outros e que, como tal, podem e devem articular connosco as suas necessidades, as suas preocupações, as suas ideias e sugestões e colaborar para a melhoria da nossa freguesia.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J. – Mais do que gerir a vida de autarca, que não desempenho a tempo inteiro, é geri-la com a vida profissional e ambas com a vida familiar, o que é um desafio que chega a ser assustador, além de extenuante. Todavia, foi um compromisso que só pude assumir após discussão com a família. Dito isto, muito mais que uma decisão pessoal ou partidária, foi uma decisão familiar, pois efetivamente é uma experiência que se está a revelar interessante, mas para a qual só se consegue dar resposta com muito espírito de sacrifício e desdobrando-me de tal forma que, é muitas vezes a família a sair prejudicada. Na verdade, a família é que serve de suporte e que permite a alguém trabalhar e ser autarca e conseguir dar resposta às necessidades de qualquer uma das referidas dimensões, pois é ela que garante ajuda, ouve desabafos, perdoa, motiva e que nos possibilita levantar e andar de cabeça erguida com orgulho de tudo o que se consegue.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J. – Queria congratular-vos por esta iniciativa e pela oportunidade que concedem para que nos pronunciemos sobre o trabalho desenvolvido e preocupações vividas. É muito importante que ofereçam a vossa colaboração para fazer chegar mais longe a visão do que pretendemos desenvolver e estabelecer, de uma outra forma, a comunicação com os nossos fregueses. Espero que continuem a trabalhar com esta vontade e preocupação, por muito tempo e que futuramente possamos voltar a falar sobre o que vai sendo feito na Freguesia de Sapataria. Votos de muito sucesso.

Rui Manuel Francisco Ferreira

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