JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Dezembro 2018 - Nº 134 - I Série - Setúbal

Setúbal

Entrevista ao Presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém

Álvaro dos Santos Beijinha

J.A.- Valorize o sector primário e o turismo desse concelho?
P.C.- Por todo o Concelho cresce o número de empresas agrícolas que se destacam pelainovação. Temos produções de relevo a nível nacional, nomeadamente em culturas como a do tomate, do arroz, e do milho. A fileira do azeite ganha cada vez mais destaque com os lagares do Concelho a apostarem em produções biológicas e inovadoras de forma a garantir a excelência do nosso produto.A suinicultura é outra das vertentes em crescimento, em que os produtores recorrem às tecnologias mais recentes para a criação dos melhores exemplares. No setor dos bovinos, quer seja de carne e leiteiro, temos igualmente assistido a uma forte dinâmica, com várias explorações a fixarem-se no Concelho. Sem esquecer a secular produção de cortiça que tem acompanhado as exigências do mercado apresentando novos produtos.
No turismo Santiago do Cacém foi o concelho do Litoral Alentejano que mais cresceu, de acordo com os últimos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística que compara o ano de 2016 em relação ao ano de 2015. Registou no indicador de estada média de hóspedes por noite a maior subida de entre os municípios com 5%; na estada média de hóspedes estrangeiros registou um aumento de 4,8 % a maior subida no conjunto dos municípios do Litoral Alentejano; em número de dormidas em estabelecimentos turísticos por cada cem habitantes foi a maior percentagem registada na região com 19,9%;em relação ao total de crescimento de estabelecimentos, a percentagem de crescimento situa-se nos 8,3%. Este aumento da procura, por parte dos turistas quer nacionais, quer estrangeiros, reflete a estratégia municipal ao nível da promoção. Como são exemplos: a participação na BTL, a integração de delegações a nível internacional, a organização de Feiras e Certames (Santiagro e Feira do Monte, que têm batido nos últimos anos números recordes de entradas), de Festivais Gastronómicos (da Enguia da Lagoa de Santo André e do Tomate em Alvalade), de iniciativas culturais onde a Câmara é organizadora e/ ou parceira, a criação da Rota dos Museus, a parceria com a Direção Regional de Cultura do Alentejo para dinamização das Ruínas Romanas de Miróbriga, bem como a revitalização do património.Há que sublinhar também que o nosso Concelho faz parte dos Caminhos de Santiago que seguem a até à cidade Compostela, e da Rota Vicentina que percorre o sudoeste alentejano.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza e, estando esse concelho inserido num dos distritos considerados de maior carência económica, como está essa autarquia a gerir esse problema?
P.C.-Naturalmente que acompanhamos com grande preocupação a situação, e com esse sentido uma das nossas apostas, neste mandato, teve precisamente a ver com as atividades económicas e com o empreendedorismo. Foram tomadas várias medidas para incentivar ao investimento e que, em primeira instância, para além de conferirem riqueza desenvolvimento económico ao Município, visam a criação de emprego e a reversão dos números ao nível da carência económica.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?
P.C.-Os números deixam-nos chocados. Este éum flagelo que percorre todas as classes sociais, desde os mais ricos, passando pela classe média, até aos mais pobres, e que muitas vezes vive escondido em vergonha. O nosso trabalho tem sido no sentido de unir esforços entre a Administração Central, a Administração Local, as entidades que operam no território e também vários organismos da administração central, para que, em conjunto, possamos dar uma resposta que ajude as vítimas e que sensibilize para este drama.

J.A-A delinquência infantil tanto no meio urbano como escolar é neste momento uma infeliz realidade.Fale-nos sobre esta situação?
P.C.-Tem-se assistido a um crescente destas situações, que nos leva a questionar o porquê de cada vez mais estas novas gerações enveredarem por estes comportamentos agressivos e intolerantes. É um problema social e comportamental complexo, que está relacionado, em primeira instância, com um acompanhamento deficiente por parte dos pais. A correria do dia-a-dia, que é característica dos nossos tempos, deixa pouco disponibilidade para a transmissão de princípios básicos aos filhos, para acompanha-los e transmitir regras de sociabilidade, e até mesmo de afetividade e empatia para com o outro. E depois há todo um contexto global, potenciado pelo surgimento das redes sociais, que parece instigar à prática dessa violência gratuita para depois ser exibida. É uma questão muito complexa e à qual urge dar resposta.

J.A.-Estando a população cada vez mais envelhecida, e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia e esta realidade?
P.C.- Quem já deu tanto ao Concelho, merece da nossa parte todo o carinho que conseguirmos proporcionar, por isso, a população sénior tem tido, já há vários anos, um acompanhamento especial da nossa parte. Entendemos que a sua sabedoria e legado pessoal e profissional pode ser muito importante para as gerações mais jovens. Para além da proximidade e acompanhamento do nosso Serviço de Ação Social a situações particulares, temos também uma articulação muito próxima com as instituições de idosos, reformados e pensionistas do Concelho, com quem trabalhamos em conjunto e que apoiamos das mais variadas formas, nomeadamente no apoio a equipamentos de cariz social. Temos projetos específicos para os nossos idosos, tanto na área sociocultural, como desportiva. Destes projetosdestaco a Oficina Móvel “O Engenhocas” que é um serviço gratuito da Câmara Municipal que visa auxiliar pequenas reparações domésticas nas áreas da carpintaria, eletricidade, serralharia, canalização e serviço de pedreiro, efetuadas por um funcionário da autarquia. Os beneficiários deste serviço são os munícipes com idade igual ou superior a 65 anos; acamados; portadores de deficiência ou incapacidade igual ou superior a 70%; isentos das taxas moderadoras do Serviço Nacional de Saúde, por insuficiência económica.

J.A.-Qual o maior problema com que esse concelho se debate?
P.C.-Tendo em consideração que a questão do emprego é aquela que mais nos preocupa, e na qual concentramos mais esforços,temos apostamos na criação de condições para a fixação de empresas, bem como estímulos para “agarrar” os jovens ao seu Concelho, para que possa ser este território a beneficiar da sua sabedoria e vontade de trabalhar.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.C.-Neste momento, as áreas mais sensíveis são ao nível da Saúde, a falta de médicos, enfermeiros e auxiliares é um dos principais problemas com que e o Hospital do Litoral Alentejo se debate, e que tem comprometido o funcionamento de várias valências a par das lacunas existentes nos Centros e Extensões de Saúde do Concelho. Outro problema prende-se com as vias de comunicação, que são fundamentais para o desenvolvimento económico do Concelho e da Região, como é o caso da ferrovia e a conclusão das obras da A26, que ligam Sines a Beja.

J.A.-Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nesse concelho?
P.C.-QueSantiago do Cacém tem um enorme potencial de crescimento nas mais variadas áreas e que estamos a fazer o caminho para consolidar esse futuro. A nossa localização privilegiada permite-nos acreditar no desenvolvimento e fixação de empresas de apoio e prestação de serviços ao Complexo Industrial e Portuário de Sines, que serão geradoras de riqueza a vários níveis. O nosso território faz a ligação ao interior do Alentejo com subsequente ligação à fronteira com Espanha e acreditamos numa cada vez maior projeção a nível regional e até nacional. Nos últimos anos assistimos à evolução do setor empresarial, que ocupa uma parte dos seus ativos. O decurso de um processo de crescimento em que temos estado empenhados, incrementando incentivos e apoios com vista à criação de riqueza e ao bem-estar económico das populações.Reunimos condições para sermos uma referência no turismo, a proximidade do mar e a riqueza da paisagem natural têm motivado a procura para o investimento na área.

J.A.-Como é a situação financeira da autarquia?
P.C.-Melhorou significativamente nos últimos anos, ainda que continuemos a debater-nos com problemas, que decorrem, na sua maioria, dos cortes brutais nas transferências do Orçamento do Estado para as autarquias. No caso da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, falamos de cerca de dois milhões de euros a menos por ano, durante a crise. Reduzimos a dívida da Câmara Municipal nos últimos cinco anos em 50%, isto é, cerca de 9,5 milhões de euros, totalizando actualmente cerca de 8 milhões de euros. Foi um esforço realizado pela Autarquia para equilibrar as contas e reduzir o prazo médio de pagamentos a fornecedores. Não obstante, esta redução da dívida não pôs em causa, nestes cinco quatro anos, um conjunto de investimentos e de obras importantes para as populações, que tem vindo a ser efetuado. As Grandes Opções do Plano e Orçamento para 2019  prevendo um valor de 35.687 milhões de euros, o que representa um aumento de 3,38 milhões de euros relativamente ao ano passado. Este crescimento prende-se com as obras que temos previstas e a decorrer, como a intervenção no Bairro das Flores que terá a sua grande repercussão em 2019, na zona envolvente ao Mercado Municipal de Santiago do Cacém, as requalificações no centro histórico de Alvalade e do Cercal do Alentejo, no Bairro do Pinhal que já foi adjudicada e na ZIL de Santo André. Este é seguramente um dos maiores orçamentos dos últimos anos, mas a Câmara Municipal criou o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano o qual candidatou a Fundos Europeus, e agora temos de aproveitar ao máximo esse financiamento pois não sabemos o que nos espera no próximo quadro comunitário. De salientar que este é um orçamento que mantém o rigor que temos vindo a incutir nos últimos anos, prevê um investimento muito significativo, e que não porá em causa o bom quadro financeiro que a Câmara Municipal de Santiago do Cacém vive atualmente.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?
P.C.-Temos desde sempre mantido uma relação muito próxima e de grande cooperação com as Juntas de Freguesia. Há protocolos de apoio financeiro e de cooperação a vários níveis, tais como na limpeza urbana, apoio a coletividades, escolas, idosos, etc. Mesmo com a diminuição das transferências do Orçamento do Estado, não diminuímos o apoio financeiro às Juntas de Freguesia.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população do seu concelho?
P.C.-Fundamentalmente uma mensagem de esperança num futuro melhor. E que essa esperança, localmente, assente no reconhecimento do potencial de crescimento que o nosso Concelho tem. Se houver essa consciencialização por parte de todos e se todos remarmos para o mesmo lado, defendendo o nosso Concelho com unhas e dentes, será mais fácil e mais rápido chegar ao nível de desenvolvimento que desejamos.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.C.-A família tem de ficar sempre em 1.º lugar. É o que temos de mais importante e que nos acompanha a vida toda. O resto, à partida, é efémero. Claro que é preciso uma grande organização da minha parte e também uma grande compreensão da família para algumas ausências, mas a família “no meio disto tudo”, é o garante fundamental na estabilidade para enfrentar os desafios do dia a dia.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.C.-O Jornal das Autarquias é fundamental para a divulgação de um trabalho ao qual nem sempre é dado o devido valor. O enorme (e cada vez maior) trabalho que as autarquias fazem para melhorar as condições de vida e o bem-estar das populações recolhe do Jornal das Autarquias uma atenção e tratamento que é um verdadeiro e muito útil serviço público. Sem o Poder Local Democrático e o trabalho que é feito diariamente pelas autarquias, até apetece perguntar: o que seria de alguns concelhos e regiões? Estamos – e julgo que todas as autarquias deveriam estar – muito gratos ao Jornal das Autarquias pelo trabalho que tem desenvolvido e aproveitamos a oportunidade para endereçar votos de continuação de bom trabalho e felicidades futuras.

Álvaro dos Santos Beijinha

Go top