JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Setembro 2018 - Nº 131 - I Série - Mafra e Sintra

Mafra e Sintra

Entrevista do Presidente da União de Freguesias da Malveira e São Miguel de Alcainça

Vitor Manuel Ferreira Gomes

J.A.- Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.U.F.-O setor primário sempre teve grande importância na economia da nossa União de Freguesias. A agricultura bem como a agro-pecuária, longe do incremento que tiveram num passado não muito distante, são fundamentais para a nossa atividade económica, caracterizada pela ruralidade em que nos encontramos, pese embora estarmos perto de um grande centro urbano como é Lisboa. Isso faz da nossa União de Freguesias um lugar apetecível para novos residentes. Disto não podemos dissociar a vertente turística potenciada por exemplos como o Convento de Mafra e toda a sua história ou as praias existentes no nosso Concelho, fatores primordiais para atração de cada vez mais existentes. Muitas vezes já vamos escutando que o Concelho de Mafra está na moda. Uma verdade insofismável tantas são as pessoas que nos visitam.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza, como está essa freguesia a gerir esse problema?
P.U.F.-Tem havido por parte da Câmara Municipal de Mafra uma preocupação permanente para com as franjas da população mais desprotegidas e nesse particular também a União de Freguesias tem procurado dar resposta a situações de maior vulnerabilidade. Felizmente que existem instituições na nossa União de Freguesias que continuam a desenvolver um trabalho meritório na área do apoio social como é o caso do Posto de Assistência Social da Malveira, minorando aquilo que são as dificuldades de muitas famílias.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?
P.U.F.-Na maioria dos casos, a desestruturação familiar, fruto de várias contingências, é o rastilho para a ocorrência de episódios de violência doméstica com as consequências que todos conhecemos. Trata-se de um fenómeno que deve merecer por parte das entidades competentes uma preocupação redobrada de forma a que seja minimizado, pois um cenário de erradicação total é um desiderato difícil de alcançar. Por outro lado, a degradação da condição financeira de muitas famílias provoca a emergência de naturais conflitos que acabam por degenerar em violência gratuita e que, como todos os dias assistimos, acabam por levar à morte.

J.A.- A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento uma infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação.
P.U.F.-Uma pergunta pertinente e muito a propósito. Até porque esse tem sido um problema que muito nos tem preocupado, tantos são os atos de vandalismo que têm existido contra o património da nossa União de Freguesias. Trata-se de uma realidade que tem vindo em crescendo e cujas autoridades, sejam elas de índole policial e até mesmo judicial não estão a conseguir dar a resposta adequada. Seja por falta de meios, ou por outra qualquer razão, a delinquência juvenil continua a aumentar exponencialmente. A nível local vamos tentando identificar as situações mais problemáticas e dar conhecimento a quem de direito. Mas não tem sido um processo fácil, com a agravante da reparação dos danos causados implicarem o recurso ao erário público. Só a título de exemplo, os muros que circundam a Mata Paroquial da Malveira tiveram que recentemente ser todos pintados na sequência de atos de vandalismo que todos repugnamos.

J.A-O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.U.F.-O referido anteriormente é só um exemplo da má formação de muitos dos nossos jovens. A violência pode traduzir-se nas mais variadas formas. Seja ela física ou outra. Na maioria dos casos os problemas começam dentro do ambiente familiar, repercutindo-se no dia-a-dia de cada um. Hoje o recurso à violência está vulgarizado, muito por culpa igualmente daquilo que nos entra todos os dias em casa pela televisão. São estes meios e então agora com as redes sociais, que acabam por propagandear os maus exemplos que depois muitos querem imitar. Só com uma política de prevenção, implementada pelas entidades competentes pode ser revertido este paradigma.

J.A.- Estando a população cada vez mais envelhecida, e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.U.F.-Dentro daquilo que é o seu quadro de competências e das condicionantes existentes, procuramos identificar os casos mais problemáticos e encaminhá-los para as entidades que podem fazer o seu acompanhamento. E esse é um trabalho que tem sido estendido inclusivamente para muitos que nos estão mais próximos e que mostram problemas a diversos níveis para os quais procuramos solução.

J.A.-Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.U.F.-Sem dúvida que a limpeza urbana é um dos principais problemas que nos preocupam. Todos os dias nos são comunicadas situações sobre esta matéria e nesse particular eu, que diariamente circulo pela União de Freguesias sou confrontado com as reclamações dos nossos fregueses. O problema é a escassez de pessoal e de equipamento que nos permita dar uma resposta mais eficaz. Mesmo assim, penso que temos dado uma resposta capaz e que poderia ser ainda melhor não fosse a falta de civismo de alguns dos nossos habitantes. Outro problema é a questão dos dejetos caninos. Somos confrontados diariamente com este problema e a sua resolução não está nas nossas mãos, mas sim na postura e educação de todos quantos usufruem do espaço público.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.U.F.-A questão do espaço da Feira da Malveira era até agora um problema que todos os dias nos assolava. Contudo, as anunciadas obras, cujo início está aprazado para o próximo ano vem pôr cobro ao mesmo. Com a requalificação deste espaço nobre da Malveira estão criadas as condições para uma nova dinâmica da nossa Vila.

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro da freguesia?
P.U.F.-Não gosto muito de falar no futuro, nem prometer aquilo que não poderemos cumprir. Logicamente que o presente é aquele que nos preocupa, sem esquecer o futuro e nomeadamente as gerações vindouras. Contudo, não é só a União de Freguesias que deve assumir todas as responsabilidades. A mesma será quilo que todos nós quisermos. Não temos uma capacidade de decisão muito alargada, mas queremos fazer sempre mais e melhor. É esse o nosso principal desiderato e continuar a fazer da nossa terra, um local cada vez mais atrativo para viver.

J.A.-Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.U.F.-A situação financeira da nossa União de Freguesias é comum há maioria de todas as outras que existem no nosso país. Fruto de uma conjuntura financeira marcada por grandes constrangimentos, naturalmente que desenhar um orçamento para a União de Freguesias e colocá-lo em prática acaba por ser um desafio diário, tantas são as solicitações a que temos de dar resposta recorrendo aos parcos recursos financeiros de que dispomos. Só fazendo uso de uma política de rigor e equilíbrio financeiro conseguimos colmatar as necessidades mais prementes e desta forma não hipotecar o futuro. Por outro lado, a estrutura de custos da União de Freguesias de Malveira e São Miguel de Alcainça está assente nas receitas provenientes dos mercados grossistas e da feira tradicional que se realiza todas as quintas-feiras. Infelizmente, também aí temos vindo a assistir a uma quebra de receitas, um cenário que condiciona qualquer tipo de investimento mais avultado, contrariamente ao que era nossa desejo. Acreditamos que a obra de requalificação do Largo da Feira, como também da Av. José Batista Antunes irá dar um novo incremento e dinamizar não só o espaço em causa, dando-lhe outra atratividade, mas acima de tudo revitalizar a nossa secular feira.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?
P.U.F.-Mais do que qualquer apoio financeiro decorrente dos acordos de execução e inter-administrativos celebrados entre a autarquia e a União de Freguesias, não posso deixar de relevar a preocupação sempre manifestada pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Mafra face aos problemas e carências que vamos reportando. Para além disso, várias têm sido as obras levadas a cabo na nossa área geográfica que, se não fosse o apoio da autarquia, era impossível concretizar e que muito têm beneficiado a qualidade de vida dos nossos cidadãos. E dentro em breve a face da Malveira irá ser alterada significativamente. Aquele que é um dos ex-libris da nossa terra, o Largo da Feira, irá sofrer uma intervenção que, estou certo, irá de encontro aquilo que é o desejo de todos os malveirenses e não só, fazendo daquele local um espaço de fruição diária e não só à quinta-feira com ainda acontece. A sua requalificação, onde se enquadra a Casa Canas com todas as valências que irá disponibilizar irão ser uma mais-valia para a nossa terra com todos os benefícios que daí advirão. E tal só vai ser possível porque a Câmara Municipal de Mafra será a responsável pela referida obra.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.U.F.-Fundamentalmente, uma mensagem de estímulo e acima de tudo de esperança de que o dia da amanhã possa ser ainda melhor para todos quantos fazem dela o seu local de eleição para viver, trabalhar e porque não investir. A Malveira, como São Miguel de Alcainça serão aquilo que os seus habitantes quiserem que seja. O espelho da nossa União de Freguesias será o reflexo dos comportamentos de todos nós e infelizmente ainda existe quem não protagonize os mais desejáveis, contrariando todas as normas do que é viver em sociedade. A falta de civismo muitas vezes evidenciada e em que a questão da limpeza urbana sobressai é um dos exemplos do atrás referenciada. Só com a assunção de uma conduta cívica dentro dos padrões exigidos contribuirá para uma melhor qualidade de vida de todos nós. E é por isso que todos dias continuaremos a lutar.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.U.F.-Trata-se de uma pergunta muito pertinente e para a qual tantas vezes tentamos encontrar resposta, nomeadamente dentro de um contexto familiar. Na nossa União de freguesias ninguém exerce o cargo a tempo inteiro, pois todos os seus membros têm a sua atividade profissional. Só com um grande espírito de entreajuda conseguimos não descurar as responsabilidades autárquicas para as quais fomos eleitos. Tal só é conseguido colocando na maioria dos casos a família em segundo plano.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.U.F.-Acima de tudo agradecer ao Jornal das Autarquias a oportunidade que foi concedida à nossa União de Freguesias com esta entrevista, mostrando um pouco daquilo que é a nossa realidade, vivências e preocupações, como também não podia deixar de elogiar o trabalho que vêm desenvolvendo, dando voz aqueles que são a base do poder autárquico democrático no nosso país. Um bem-haja e mais uma vez o nosso reconhecido agradecimento.

Vitor Manuel Ferreira Gomes

Go top