JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Julho 2018 - Nº 129 - I Série - Lisboa

Lisboa

Entrevista à Presidente da junta de freguesia de Benfica

 Inês de Drummond Ludovice Mendes Gomes

J.A.- Valorize o sector primário e o turismo dessa freguesia?
P.J. - Qualquer comunidade deve contar com o contributo da sua memória e do seu momento presente na construção das soluções do futuro. Desde 2013 que a Junta de Freguesia de Benfica aposta na valorização do seu património histórico. O Benfica Footsteps é um roteiro histórico com um percurso pedestre pela freguesia de Benfica, desenvolvido pela primeira vez nesse ano pelos jovens do Projeto Retrocas, em parceria com a Junta de Freguesia de Benfica. Destaco também a requalificação do Palácio Baldaya, um magnífico espaço, que esteve vedado ao público durante mais de cem anos, e foi em 2017 transformado num polo cultural e de inovação em Benfica, hoje muito visitado pelos lisboetas e até alguns estrangeiros.Só uma comunidade que valoriza o passado está em plenas condições de lançar as sementes de futuro. 

J.A.- Tendo havido alteração nos resultados eleitorais autárquicos de 2017, o que pensa sobre isso?
P.J.- As eleições são uma das expressões do sentir da população. O reforço da confiança no nosso trabalho, só ampliou a responsabilidade de continuarmos a trabalhar para responder aos desafios do presente e a antecipar as necessidades e as ambições do futuro.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza, como está essa freguesia a gerir esse problema?
P.J.- Um território urbano como o de Benfica está sujeito às dinâmicas nacionais, mas temos concretizado um amplo conjunto de respostas sociais para corresponder às necessidades sociais da nossa comunidade. Na área da formação profissional, destacamos a criação do Formup Benfica em 2014, que representa um recurso estratégico na promoção do acesso à formação e na resposta às necessidades formativas e de aprendizagem existentes e que tem vindo a obter excelentes resultados com mais de 30 cursos ministrados, a mais de 900 formandos, e um grau de empregabilidade na ordem dos 73%. Estes resultados foram em 2017 amplificados com a instalação de um Centro Qualifica na Junta de Freguesia de Benfica.Este é um trabalho integrado com as instituições de solidariedade social presentes no nosso território que procura contribuir para a qualidade de vida dos cidadãos e para a coesão territorial. A recuperação geral da economia registada desde 2015, com a reposição de direitos e rendimentos, melhorou as condições de vida dos cidadãos, mas o território urbano é sempre muito exigente no combate às situações de pobreza, de exclusão e de solidão. 

J.A.- Sendo um concelho onde se verifica maior número de pessoas “Sem Abrigo”, como estão a gerir essa situação?
P.J.- Essa é uma das preocupações da estratégia de ação social da Junta de Freguesia e do trabalho integrado com o Município e com as IPSS que trabalham no nosso território. Não sendo uma realidade com grande expressão no espaço da nossa Freguesia, é uma preocupação das nossas respostas sociais.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?
P.J.- Em Portugal, existem realidades que têm ganhado expressão pela maior consciência individual e comunitária. A violência doméstica é uma delas. O caminho percorrido no combate à violência doméstica deve ser prosseguido através da ampliação da consciência social, da prevenção dos comportamentos no namoro e no aprofundamento da rede de apoio às vítimas.

J.A.- A delinquência infantil tanto no meio urbano como no escolar e neste momento uma infeliz realidade. Fale-nos sobre esta situação
P.J.- A complexidade das sociedades modernas e do contexto urbano coloca um conjunto de desafios de integração e coesão individual e comunitária em que nenhuma das partes são dispensáveis. A família, a escola e as instituições da comunidade têm um papel a desempenhar. Sabendo que algumas não preenchem a exigência da realidade, surgem as respostas sociais e o trabalho articulado com as comunidades educativas para combater os comportamentos desviantes, as dificuldades de integração e as necessidades complementares de geração de oportunidades de socialização.  
A Junta de Freguesia de Benfica tem vindo a desenvolver projetos que têm como objetivo combater o abandono e absentismo na escola, minimizando os riscos da exclusão, tornando-o num instrumento para a construção de oportunidades e possibilidades de integração social. Dessa forma, pretende promover a progressão escolar e formativa dos alunos sinalizados, em estreita colaboração com as Direções dos Agrupamentos Escolares, entre outras entidades relevantes para a resolução do problema, recorrendo sobretudo ao papel determinante do próprio aluno e da sua família.

J.A-O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.- Nenhuma violência é gratuita. Toda tem um preço a pagar, individual e comunitariamente. A destruição de um equipamento público tem um preço. As incivilidades que por vezes se registam no espaço público que procuramos qualificar têm um preço financeiro e um preço social na medida em que impossibilitam o seu usufruto pelos cidadãos.

J.A.- Estando a população cada vez mais envelhecida, e muita dela sem apoio familiar e recursos financeiros, que apoio presta a autarquia a esta realidade?
P.J.- A Junta de Freguesia de Benfica tem-se constituído em entidade de garantia da proximidade dos serviços público e das respostas sociais, tendo justamente em conta o perfil e as necessidades da população. Em articulação com o Centro de Saúde, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e Polícia de Segurança Pública, foi estabelecida uma rede que suporte diária para os seniores sem apoio familiar ou institucional. A Junta dispõe de uma plataforma de emergência social destinada aos seniores que providencia serviços na área das ajudas técnicas, da lavandaria social ou do transporte solidário. Com a finalidade de promover o envelhecimento ativo, a Junta implementa uma agenda cultural sénior diversificada, assim como vários programas desportivos adequados à idade.

J.A.-Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.- Os problemas estruturais relacionados com a mobilidade, com as necessidades de valorização do espaço público e com as dinâmicas existentes no território em relação a mais serviços públicos para a população sénior, à dinamização do comércio local e à geração de novas oportunidades de fixação e de emprego.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.- Um território como o de Benfica exige uma intervenção constante em diversas áreas, no âmbito das competências próprias, na articulação com o município e na mobilização do Poder Central para uma população que precisa de respostas sustentadas em questões como a habitação, a mobilidade, a saúde, a educação e a proximidade a serviços de interesse público.

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro da freguesia?
P.J.- Nas mais diversas áreas de serviços e de interesses para os cidadãos, Benfica dispõe de um amplo conjunto de serviços públicos e privados. Com noção da complexidade e exigência de uma realidade urbana, com problemas e dinâmicas próprias, temos uma perspetiva positiva sobre o futuro da freguesia. Temos memória, temos um presente de valorização das pessoas e do território, temos marcas de referência na cidade de Lisboa e no país, temos todas as razões para acreditar nas capacidades dos nossos cidadãos, das nossas instituições e do nosso movimento associativo.

J.A.-Qual a mensagem que leva às mais variadas reuniões e eventos? E porquê investir nessa freguesia?
P.J.- Na recuperação do passado, vide palácio Baldaya, na afirmação do presente, na diversidade de iniciativas correntes e de grandes momentos com o Grande Arraial de Benfica, damos expressão a uma identidade própria, inovadora e com sentido de futuro, que tem trabalhado para valorizar o espaço público, para centrar nas pessoas o foco do trabalho e para estar atentos às dinâmicas do nosso espaço urbano.

J.A.-Como é a situação financeira dessa freguesia?
P.J.- A Junta de Freguesia de Benfica, perante a complexidade e a exigência das solicitações do nosso território, procura manter uma gestão rigorosa, sustentada e com sentido de futuro. A situação é equilibrada, mas os recursos nunca são os que ambicionávamos. Como na vida, precisamos de fazer opções. E fazemo-las, sempre centradas nas pessoas.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?
P.J.- Desde 2012, com a reforma administrativa de Lisboa, que o Município é parceiro das Freguesias na concretização de melhores serviços públicos de proximidade. A reforma administrativa de Lisboa concretizou melhores serviços de proximidade para as pessoas e os territórios, num contexto de grande dinamismo da cidade, de importante pulsar das comunidades locais e de crescente exigência dos cidadãos. A ampliação de recursos humanos e financeiros ao dispor da freguesia não deixam de ser insuficientes para a dimensão do desafio de gestão do território, perante as aprendizagens do processo anterior, próprio de Lisboa, e da discussão em curso sobre a descentralização de competência e meios do Poder Central para o Poder Local.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.- Trabalhámos, trabalhamos e continuaremos a trabalhar para responder com proximidade, com humildade e com eficácia às necessidades, às ambições e aos desafios colocados pelas pessoas. As pessoas são a nossa maior obra, e é para elas que trabalhamos diariamente, como gestores de uma freguesia que é de todos.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.- É um desafio permanente em que a família é sacrificada em detrimento da concretização das responsabilidades e do mandato democrático dos cidadãos. Só com grande compreensão e paciência da família é que conseguimos concretizar o padrão de responsabilidade, proximidade e exigência que julgamos fazer parte do nosso compromisso com a comunidade da Freguesia de Benfica. Num tempo com demasiados egoísmos, alguém tem de fazer trabalho comunitário e com sentido de coesão social e territorial. Ver melhorar o território, assistir a transformações na vida das pessoas é uma sublime afirmação da cidadania.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.- É sempre importante haver um esforço de informação rigoroso, abrangente e com sentido de construção positiva sobre uma das maiores conquistas do Portugal Democrático e da Revolução do 25 de Abril. É importante continuem o trabalho de divulgação do poder local e das autarquias que são o verdadeiro poder de proximidade e motor de desenvolvimento socioeconómico do País.

Inês de Drummond Ludovice Mendes Gomes

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