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JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Novembro 2017 - Nº 121 - I Série - Leiria

Leiria

Isabel Maria Gonçalves Rodrigues Pereira de Freitas

Entrevista à Presidente da junta de freguesia de Marinha Grande

Isabel Maria Gonçalves Rodrigues Pereira de Freitas

J.A.-Qual a sua opinião sobre a situação política atual?

P.C.-Creio que vivemos uma fase muito interessante da vida nacional que resulta da nova composição política no plano da Assembleia da República. Uma expressão da vontade popular, que tem possibilitado a recuperação de rendimentos e direitos para os trabalhadores e o povo do nosso país. Ainda na passada semana, na Junta de Freguesia da Marinha Grande (JFMG) foi assinada uma adenda ao Acordo Colectivo de Empregador Público (ACEP) graças ao qual, entre outros direitos, foram repostos os três de férias retirados aos trabalhadores da Função Pública pelo anterior Governo. Uma alteração político-legislativa que, até à data, tem invertido a tendência de degradação do serviço público dos últimos seis anos de governação.

J.A.- Sendo essa região uma das mais fustigadas pelos incêndios, quais as medidas a adoptar, de futuro; para minimizar tais calamidades?

P.C.-É do conhecimento de todos a catástrofe que se abateu sobre alguns dos concelhos do nosso distrito durante o passado mês de Junho. Ainda que a vaga de incêndios não tenha atingido a Marinha Grande, acompanhámos bem de perto esta realidade.
A nossa Junta de Freguesia reconhece por isso, o dedicado e corajoso trabalho desenvolvido pela corporação de bombeiros e pela equipa da protecção civil da Marinha Grande nos concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos. Um reconhecimento que se estende naturalmente à população marinhense que, de forma solidária e empenhada, procurou apoiar as vítimas e as forças envolvidas no combate aos fogos.
Contudo, importa não esquecer que catástrofes como a que assistimos este Verão não resultam apenas de condições climatéricas adversas mas também e determinantemente de opções políticas. Assim, considero fundamental a implementação de medidas que visem a protecção da floresta, a prevenção de incêndios, invertendo a tendência de desresponsabilização do Estado em matéria de gestão da floresta e ordenamento do território através, por exemplo, do combate à desertificação e do incentivo à actividade agrícola. Por outro lado, e ai as Autarquias poderão desempenhar um papel importante, é essencial, dentro dos seus recursos e competências, contribuir para a melhoria das condições de intervenção dos operacionais que estão no terreno durante as fases mais agudas da época de incêndios.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza e, estando esse concelho inserido num dos distritos considerados de maior carência económica, como está essa autarquia a gerir esse problema?

P.C.-Nesta matéria, a realidade marinhense é substancialmente diferente do contexto distrital. Vivemos numa cidade em que o título de capital do vidro continua a assentar-lhe bem. Contudo, a par das fábricas de vidro assistimos nos últimos 50 anos ao desenvolvimento das indústrias de moldes e plásticos. Actualmente, a indústria transformadora (sector secundário) representa o principal motor económico do município com um total de 574 empresas. Um desenvolvimento industrial que tem motivado indicadores demográficos, sociais e salariais superiores a muitos dos concelhos vizinhos.
Assim, e de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de emprego da população activa ronda os 93,1% e regista-se um ganho médio mensal na ordem dos 1155,57€, ainda que com enormes disparidades entre sector primário, secundário e terciário. Um cenário, ainda que aparentemente favorável, mas que traz consigo a dureza das condições de trabalho por turnos, repetitivo e fisicamente exigente, não poucas vezes adverso ao bem-estar físico e psico-emocional dos trabalhadores e das suas famílias e muitas vezes, limitador até da constituição de família.
Para além disso, a Marinha Grande não ficou alheada das consequências da política de direita dos anteriores governos e da tendência de desresponsabilização do Estado no plano dos direitos sociais e laborais. As populações ressentiram-se disso e procuraram apoio nas autarquias. Recordo-me bem dos meus primeiros tempos como presidente da Junta de Freguesia da Marinha Grande (JFMG). De uma valeta obstruída e dos buracos na estrada as conversas acabavam por tomar outro rumo. Quando dava por mim, as pessoas estavam a falar dos seus problemas, das suas vidas. Problemas que procurámos dar resposta, às vezes para lá das nossas competências e capacidades. E foi justamente essa relação de grande proximidade com as pessoas e os seus problemas que motivou a criação e posteriormente ampliação do Gabinete de Apoio Psicossocial (GAP) da JFMG. Hoje a funcionar de segunda a sexta feira com as valências de apoio social, psicologia e nutrição, o GAP assume-se um importante instrumento de intervenção junto da comunidade, prestando acompanhamento e informação personalizados a cada caso e sempre em articulação com serviços, instituições e respostas sociais do concelho.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?

P.C.-A este propósito é justo assinalar o papel do 25 de Abril de 1974 no processo social de emancipação das mulheres portuguesas. No nosso país, a Constituição da República Portuguesa (CRP) veio materializar a conquista da igualdade de direitos entre homens e mulheres, trazendo melhorias significativas das suas condições de vida e reflectindo alterações profundas no seu papel na família, no trabalho e na sociedade. Contudo, a realidade mostra-nos que há ainda um longo caminho a percorrer e os números avassaladores da violência doméstica são prova disso mesmo.
Considero inaceitável que, em pleno século XXI, as mulheres continuem a ser o principal alvo de homicídios ou tentativas de homicídio. Que sejam mulheres, as principais vítimas de violência doméstica, da violência no namoro, de assédio sexual e moral tanto no trabalho como na vida pública e privada. Por outro lado, creio tratar-se de um fenómeno que não pode ser desligado da precaridade laboral, dos baixos salários, do desemprego e da insegurança laboral, uma vez que só a independência económica da mulher poderá garantir o seu empoderamento e emancipação.

J.A-O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?

P.C.-Creio que condições de vida adversas, em que os compromissos laborais ocupam, muitas vezes, o espaço da vida familiar, roubam tempo ao lazer e convívio em família e condicionam a presença dos pais na educação e formação dos seus filhos, potenciam a banalização da violência. Consequentemente, crianças e jovens passam longos períodos de tempo sozinhos, entregues a tipos de entretenimento que estimulam a violência que proliferam nos meios de comunicação dominantes. Situações de negligencia, abandono e de distúrbios comportamentais alarmantes sobre os quais a JFMG procura intervir através do seu GAP, nomeadamente nas suas valências de apoio social e psicologia. É nosso compromisso, promovermos plano das políticas locais, o reforço dos valores da paz, da solidariedade e da cooperação. Acredito que as juntas de freguesia em geral, em razão da sua grande proximidade com as populações e com o movimento associativo, se encontram num espaço privilegiado para fomentar estes valores através do envolvimento e participação activa da comunidade na definição de actividades, iniciativas, campanhas que ocupem os tempos livres das nossas crianças e jovens, contrariando assim a lógica dominante da violência gratuita.
Finalmente, temos igualmente procurado intervir ao nível de outras formas de violência. Assim, o GAP da JFMG em estreita articulação com a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), tem procurado sensibilizar a comunidade para a problemática dos maus-tratos, colaborando e apoiando as suas iniciativas sobre esta problemática. Para além disso, realizamos muito recentemente, no passado mês de Setembro, uma palestra sobre formas de identificação de maus-tratos em crianças e jovens.

J.A.-Qual a vossa opinião sobre a emigração dos nossos jovens, principalmente os mais credenciados?

P.C.-Somos um país de emigrantes e a Marinha Grande uma terra de gente que conhece bastante bem essa realidade. Quantos de nós ou dos nossos familiares não deixaram o país durante as décadas de 60 e 70, na busca de melhores condições de vida, fugindo da Guerra Colonial e da opressão do regime fascista, na sua maioria jovens operários, de baixa escolaridade ou até mesmo sem instrução. Um fenómeno que se repetiu recentemente, ainda que com contornos substancialmente diferentes. A nova vaga de emigrantes inclui um elevado número de jovens qualificados e com formação superior. A chamada “fuga de cérebros” é encarada pela JFMG com preocupação e perplexidade. É mais uma das consequências negativas das políticas de austeridade impostas pelo anterior governo. Medidas que levaram centenas de trabalhadores qualificados ou com formação avançada a abandonar o país. Uma perda gigantesca não apenas do contributo que estes poderiam dar ao desenvolvimento do país, mas também um sinal de desvalorização e desrespeito do Estado por estes cidadãos. Estou convicta de que a actual conjuntura governativa irá contribuir para inverter este fluxo migratório, permitindo que muitos desses jovens regressem e aqui possam sentir-se realizados a nível profissional e nas várias etapas das suas vidas.

J.A.-A vinda de refugiados tem causado alguma celeuma. Que opinião tem sobre este tema?

P.C.-As intervenções militares das potências ocidentais, com os EUA à cabeça, semearam o caos e a desgraça em muitas cidades do Médio Oriente. Chegavam-nos imagens angustiantes de refugiados que, fugindo da guerra, tentavam desesperadamente sobreviver, procurando noutros países as condições necessárias para refazer as suas vidas. A Marinha Grande, uma terra de gente solidária que defende os valores da paz, acolheu em Dezembro, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia, um casal de sírios que, até onde nos foi possível apurar, se encontra perfeitamente integrado no quotidiano da cidade. Ela empregada no centro de dia da Santa Casa e ele numa fábrica da indústria dos moldes.

J.A.-Que apoio presta a autarquia aos mais idosos?

P.C.-Sendo a Marinha Grande uma terra com uma forte tradição associativa, as colectividades e associações assumem-se importantes espaços de convívio e socialização das populações. Aglutinadoras de gente de todas as idades através da organização de eventos desportivos e culturais, as colectividades desenvolvem igualmente um trabalho social que importa realçar, nomeadamente no que respeita a terceira idade e a promoção do envelhecimento activo. Assim, mais do que desenvolver uma linha própria de intervenção junto da população idosa, a JFMG entende que o caminho a seguir deve ser o de apoiar e reforçar o trabalho desenvolvido pelo movimento associativo neste campo. Temos procurado dotar as colectividades de mais e melhores condições para prestar apoio aos nossos idosos. Uma verdadeira parceria é o que nesta frente, como em tantas outras, existe entre JFMG e movimento associativo. Exemplo dessa parceria é a iniciativa que o GAP da JFMG promoveu este ano juntamente com o movimento associativo e a Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC), o projecto “Ao encontro das colectividades”. Uma aposta na prevenção que levou a quatro colectividades da freguesia, cerca de 32 sessões de formação/sensibilização conduzidas por técnicos especializados, sobre temas que vão desde a alimentação, à medicação, passando pela prevenção de acidentes domésticos, primeiros socorros e classe movimento, dirigidas à população idosa e seus cuidadores.

J.A.-Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?

P.C.-O mandato que agora terminou ficou marcado por fortes dificuldades no que diz respeito ao asfaltamento de caminhos. Temos na freguesia cerca de 300 caminhos que foram abertos e asfaltados pelos anteriores executivos da JFMG. Caminhos esses que hoje se encontram muito degradados, alguns quase intransitáveis e a nossa junta viu-se de mãos e pés atados, impossibilitada de proceder à sua recuperação. Em causa esteve o bloqueio imposto pela Câmara Municipal da Marinha Grande (CMMG) que, nos últimos três anos, ao contrário do que era habitual, negou à JFMG o fornecimento dos materiais necessários para realizar tais reparações.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?

P.C.-Para além da questão que aflorei anteriormente, e focando-me exclusivamente nas competências da JFMG, este verão surgiram dificuldades ao nível da limpeza de ervas daninhas em alguns lugares periféricos da freguesia. Apesar do empenhamento das equipas de trabalhadores da junta, as variações climatéricas muito bruscas contribuíram para um crescimento muito rápido das ervas e consequentemente, trouxeram maiores dificuldades ao trabalho da Junta. Apesar dos nossos esforços, não foi possível dar uma resposta conveniente.

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro do freguesia?

P.C.-Tudo faremos no sentido de prosseguir o trabalho desta Junta de Freguesia que queremos que continue, de portas abertas para as populações, onde eleitos e trabalhadores tudo farão pela melhoria das condições de vida dos que aqui vivem e trabalham. Assim, e apenas a título de exemplo, pretendemos prosseguir com a requalificação e valorização do nosso parque escolar e envolver as populações no embelezamento das suas fachadas, dotar o GAP da JFMG de mais meios por forma a ampliar a capacidade de resposta do serviço de consultas de psicologia, nutrição e apoio social, contribuir para fazer da Marinha Grande uma freguesia mais inclusiva através da organização de fins de semana com actividades culturais e desportivas adaptadas a pessoas com deficiência, assegurar o bom funcionamento da Orquestra Juvenil da Marinha Grande, dar continuidade ao projecto de requalificação das zonas de pique nique da Mata Nacional e em parceria com as escolas decorar o seu mobiliário com elementos da fauna e flora pintados pelos alunos dos estabelecimentos de ensino da freguesia, reforçar a limpeza de arruamentos nas periferias da freguesia, garantir que à semelhança dos últimos anos, o mandato que agora começa será de parceria com as colectividades, associações e clubes desportivos da freguesia, contando com o total apoio logístico e financeiro da JFMG para a realização das suas actividades. Finalmente, estamos empenhados em concretizar a requalificação do edifício da nossa Junta de Freguesia, dotando-o de mais condições para quem nela trabalha e consequentemente para melhor servir as populações

J.A.-Como é a situação financeira da autarquia?

P.C.-Ao longo destes últimos quatro anos de mandato a JFMG tem transitado com um saldo de
gerência positivo. Porém, o mesmo tem vindo a diminuir uma vez que, de ano para ano, temos procurado aumentar o investimento na nossa freguesia. Assim, ampliámos e melhorámos os serviços prestados e em alguma situações assegurámos mesmo competências que
deveriam ser subsidiadas pela CMMG. Exemplo disso é o caso da Orquestra Ligeira Juvenil, criada em 1995 numa parceria entre CMMG e JFMG, que nos últimos anos esteve em risco de deixar de funcionar não fosse o exclusivo apoio da JFMG.
Apesar disso, estamos em condições de afirmar que a JFMG tem tido saúde financeira, cumprindo com todas as suas responsabilidades e competências graças a um gestão eficiente e ajustada dos recursos financeiros às necessidades da freguesia.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?

P.C.-Infelizmente num momento de balanço do anterior mandato e planificação dos próximos quatro anos, lamento profundamente que a CMMG não tenha tido até aqui a capacidade de olhar para a Junta de Freguesia como uma parceira directa e não como rival. Os entraves ao nosso trabalho foram mais que muitos. Mais do que bloquear a intervenção da JFMG, a actuação da Autarquia gerou enormes prejuízos para as populações da Marinha Grande. Espero sinceramente que, no mandato que agora iniciamos, esta relação possa estreitar-se, a bem da melhoria das condições de vida dos marinhenses.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?

P.C.-Fundamentalmente, a mensagem que quero dirigir à população da freguesia da Marinha Grande é de esperança no futuro e de confiança nesta Junta de Freguesia, nos seus eleitos e trabalhadores. Seguem-se quatro anos de um trabalho intenso, à semelhança do que foi o último mandato, em prol da Marinha Grande, da sua valorização e desenvolvimento, pela melhoria das condições de vida das populações.
Nesta terra de gente de luta, que sabe o que quer, gente atenta aos problemas, envolvida na dinâmica da freguesia, tão crítica quanto solidária, as portas da JFMG continuarão abertas para mais quatro anos de trabalho colectivo, em parceria com o movimento associativo, com as escolas, com os clubes, com as populações dos diferentes lugares da freguesia. Podem contar connosco! E nós cá estamos, para convosco, construir uma freguesia mais desenvolvida e feliz.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?

P.C.-Não é fácil, mas com muita força de vontade e perseverança, com espírito de missão, paixão por servir o outro e essencialmente com a colaboração da família, julgo ter dado o melhor de mim. Chego ao final de cada dia e deito a cabeça na almofada com a consciência tranquila, sabendo que o que ficou por resolver será resolvido. Sempre com o sentimento de que amanhã continuaremos com o mesmo empenhamento, procurando encontrar as melhores soluções, sem perder nunca de vista os interesses das populações. Sempre com o pensamento de que amanhã é um novo dia, e com ele novos desafios surgirão, e de novo, com a nossa entrega total e o suporte da família, tudo faremos por resolver ou minimizar os problemas das populações. E isso é, sem dúvida, o mais gratificante!

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?

P.C.-Daquilo que conheço da vossa publicação, creio tratar-se de um órgão de informação credível, que reconhece o papel e a importância das Autarquias e que coloca em primeiro plano o trabalho por elas desenvolvido. Num momento em que frequentemente, o papel dos autarcas e dos órgãos do poder local é descredibilizado, só posso saudar o Jornal das Autarquias pelo excelente trabalho desenvolvido, com um cunho jornalístico isento. Um trabalho de grande importância ao nível da produção e difusão de conteúdos rigorosos e imparciais sobre os órgãos do poder local, com, que dá voz aos autarcas e traz para a praça pública as grandes questões políticas com que as autarquias se deparam. Bem hajam!

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