JORNAL DAS AUTARQUIAS

Inscrito na E.R.C. sob o nº 125290

Junho 2018 - Nº 128 - I Série - Bragança e Vila Real

Bragança e Vila Real

Amauri dos Santos Morais

Entrevista ao Presidente da Junta de Freguesia de Vilar de Peregrinos

Amauri dos Santos Morais

J.A.- Tendo havido alteração nos resultado eleitorais autárquicas de 2017, o que pensa sobre isso?
P.J.- Penso que há alguma vontade em alterar o nível de competências e responsabilidades a atribuir às freguesias. Todavia, creio que não se vislumbram grandes melhorias para as freguesias de menor dimensão e principalmente para aquelas que se localizam no interior de país, pois as propaladas políticas de discriminação positiva para as áreas mais desfavorecidas tardam em chegar e há dúvidas que elas sejam efectivamente implementadas. Em termos políticos, vamos continuar a assistir ao definhar de muitas freguesias quase esquecidas algures longe do litoral e dos grandes centros urbanos.

J.A.-Qual a sua Opinião sobre o OE para 2018?
P.J.- Para as pequenas freguesias como é o caso desta, o OE veio trazer uma pequena melhoria no seu financiamento. A nível global, parece-me que o OE devia ter privilegiado algumas áreas ainda muito carentes de fundos estruturais. A propalada descentralização podia ser uma lufada de ar fresco para as autarquias, mas parece-me que o processo não está a ser bem encaminhado. É responsabilidade da Associação de Municípios e da ANAFRE reivindicar condições equitativas para todo o território. Não podemos continuar a assistir à atribuição de mais atribuições e responsabilidades aos municípios e freguesias sem que sejam acompanhadas dos necessários meios para cumprir com qualidade as novas tarefas.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza e, estando esse concelho inserido num dos distritos considerados de maior carência económica, como está essa autarquia a gerir esse problema?
P.J.- O aumento do desemprego também atinge esta zona. As pessoas jovens emigraram quase todas para França, Suíça, Espanha, etc. por falta de resposta das entidades empregadoras locais, o que provocou uma ausência muito acentuada de gente jovem na freguesia. Estamos numa zona rural onde predomina a agricultura, o que justifica a falta de emprego qualificado para os jovens que depois de completarem os seus estudos são obrigados a procurar emprego longe da sua terra natal. A gestão deste problema não é fácil para a autarquia porque não tem meios para dar resposta aqueles que necessitam de um emprego estável e qualificado.

J.A.-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?
P.J.- Penso que a violência doméstica é resultado de muitos problemas culturais, sociais, económicos e familiares. Uma das causas principais, advém da crise que se instalou nas famílias. Na verdade hoje vemos muitas famílias destruturadas, pessoas que não se entendem, devido ao nível de pobreza, à falta de trabalho, ao consumismo exacerbado, enfim, a um conjunto de problemas que torna as pessoas egoístas, incompreensíveis, intolerantes e violentas. É verdade que sempre houve violência doméstica, mas nos dias de hoje a prática destes crimes não tem justificação alguma e eles só acontecem, com a frequência que é conhecida, devido a inoperância da justiça e à falta de investimento na educação, pois demorou-se imenso tempo em tratar esta problemática no ensino, nas polícias e também nas IPSS.

J.A.-O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?
P.J.- Este é um problema actual e com tendência para se agravar ainda mais. Na minha opinião, uma das principais causas deste fenómeno é também proveniente da crise da família, pois com frequência vemos que muitos jovens crescem sem qualquer controlo familiar devido a pais inábeis, descuidados e ausentes do processo de crescimento dos filhos, o que facilita a entrada precoce na delinquência. Mas não é esta única causa, pois com frequência acontecem casos graves despoletados por grupos ribais devido questões raciais, religiosas, étnicas e políticas radicais, onde abundam indivíduos que não têm respeito algum pelos valores da vida em sociedade.

J.A.-Que apoio presta a autarquia aos mais idosos?
P.J.- Tal como na maioria das aldeias do interior, a população nesta freguesia é maioritariamente idosa. Aqui houve até ao final do século passado três escolas primárias, mas em poucos anos, as crianças desapareceram o que deu lugar ao encerramento de todas elas. Em contrapartida, houve necessidade de acrescentar aos cemitérios. Neste contexto, a autarquia dá o apoio possível a este grupo etário, designadamente apoio sanitário através do posto de socorros instalado no edifício da junta de Freguesia, onde podem receber acompanhamento de enfermagem pelo menos um dia por semana.

J.A.-Qual o maior problema com que essa freguesia se debate?
P.J.- O maior problema desta freguesia é a falta de pessoas jovens, pois a continuar este estado de coisas, esta autarquia, assim como muitas outras do interior, vêm a sua continuação como freguesia em perigo. As pessoas existentes, na sua maioria idosas, não duram sempre. Assistimos ano após ano a vários funerais e nascimentos muito poucos para não dizer quase nenhuns. Se continuarmos nesta senda, vamos ter cada vez mais habitações desabitadas, ruas desertas, encerramento de serviços, propriedades rurais ao abandono, um conjunto de situações de difícil resolução que não auguram um futuro promissor para as pequenas aldeias.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?
P.J.- Para já precisamos de dar atenção aos mais idosos, estamos a ver cada vez mais pessoas a viver sem companhia, umas porque os filhos partiram, outras porque o cônjuge faleceu. Entendemos que a solidão é também um grave problema social e uma lacuna de difícil resolução. Temos a noção da necessidade de um centro de dia, uma estrutura que ainda não foi possível por a funcionar por falta de meios e também pelo facto da maioria dos idosos estarem a ser encaminhados para os lares de terceira idade próximos.

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro do freguesia?
P.J.- Eu ainda acredito que alguns casais jovens possam dentro de poucos anos regressar à freguesia, pois têm sido construídas muitas habitações novas e muitas outras têm sido restauradas, investimos avultados que eu entendo como uma vontade de regressar, até porque estamos numa aldeia com boas aptidões agrícolas que podem trazer de volta gente que queira dedicar-se a este modo de vida. A freguesia está arranjada, tem tudo que é necessário para se viver tranquilamente e com uma boa qualidade de vida, factores que podem contribuir para o regresso de pessoas que por um motivo ou outro se ausentaram.

J.A.-Como é a situação financeira da autarquia?
P.J.- A situação financeira da freguesia é débil. Desde logo porque é uma autarquia pequena, com pouca área e poucos habitantes, o que reduz em muito a tranche que é recebida do Fundo de Financiamento das Freguesias. Acresce ainda o facto da freguesia se ter visto confrontada, desde o início do anterior mandato (2013), com uma dívida por execução fiscal devido a um projecto florestal mal concluído, dívida essa que retira uma boa fatia ao montante recebido do FFF o que reduz significativamente as verbas disponíveis para as várias exigências que pendem sobre a autarquia.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?
P.J.- A Câmara Municipal apoia as juntas de freguesia em várias áreas, destacando-se a cedência de máquinas diversas, manutenção das redes de saneamento e de água ao domicílio, apoio financeiro para limpeza de arruamentos e caminhos rurais, actividades culturais e desportivas. Tem existido também apoio financeiro e técnico para aquelas obras mais complexas e que envolvem a disponibilidade de verbas avultadas.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?
P.J.- Desejo deixar uma mensagem de esperança num futuro melhor. Quero mais uma vez reafirmar a todos os fregueses que o executivo desta Freguesia continuará, como sempre tem feito, a pugnar por melhores condições de vida para toda a população das nossas aldeias. Dizer também que estaremos sempre disponíveis para todos e principalmente para apoiar os mais necessitados em todas as áreas que sejam da competência da Junta de Freguesia

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?
P.J.- Na verdade a vida de autarca exige cada vez mais uma disponibilidade permanente o que acarreta um grande prejuízo para a vida familiar. Com frequência o autarca é chamado dar apoio aos seus fregueses, a estar presente em cerimónias, reuniões e eventos, factos que absorvem tempo disponível para aquelas tarefas que normalmente as famílias desejam ter. Apesar disso, o envolvimento na vida pública traduz-se numa das manifestações mais nobres de cidadania porque tem por objectivo o bem comum.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?
P.J.- Espero que o jornal continue a dar voz aos eleitos das autarquias locais, principalmente naquelas freguesias de menor dimensão e mais afastadas dos meios urbanos. Espero também que o Jornal das Autarquias sirva também como veículo para fazer chegar aos centros de decisão, os problemas, as necessidades e os anseios justos das pequenas freguesias e respectivos fregueses.

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