Março 2015 - Nº 101 - I Série - Santarém - Inscrito no ERC sob o nº 125290  
Santarém
 

Entrevista da Presidente da Junta de Freguesia de Alpiarça

Fernanda Cardigo

 

J.A.-Qual a sua opinião sobre a situação política atual?

P.J.-Um momento de esperança, mas nunca ignorando os enormes obstáculos que a cada momento se colocam no caminho para um Portugal melhor, mais solidário e mais justo. Obstáculos não só internos como também do exterior, como se tem visto a propósito do Orçamento para 2016.

J.A.-Que pensa sobre as novas medidas anunciadas por este governo em exercício?

P.J.-Como referi atrás, enquadram-se num momento de esperança para muitos portugueses. E estou, como muitos autarcas, de algum modo ansiosa para conhecer o que este governo pensa (e vai fazer) em relação ao Poder Local, apesar de termos consciência que as limitações deverão continuar a ser muitas, com todas as consequências que daí possam vir para as populações.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza e, estando essa freguesia inserida num dos distritos considerados de maior carência económica, como está essa autarquia a gerir esse problema?

P.J.-A Junta tem vindo a acompanhar essa situação mas sempre conscientes que devido ao reduzido orçamento que dispomos, a nossa intervenção é sempre muito limitada, pelo que trabalhamos em rede com outras instituições, particularmente com a Câmara Municipal, de modo que as situações mais graves sejam sinalizadas e encaminhadas para quem de direito (quando ultrapassam a nossa capacidade de intervenção) e que os apoios sejam optimizados.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?

P.J.-Uma verdadeira desgraça que temos vindo a assistir e cujas soluções não estão ao alcance de uma mão. Não tenho a certeza se estamos perante um aumento drástico. O que tenho a certeza é que tudo agora é muito mais visível. Quem é que há uns anos dava muito destaque à violência que, por vezes, começa logo no namoro? A nossa cultura (quando a violência é do homem sobre a mulher) é uma das grandes causas, mas a crise económica, o desemprego, as dificuldades em que as pessoas vivem ainda contribuem, em muitos casos, para aumentar o problema.

J.A.-Qual a vossa opinião sobre a emigração dos nossos jovens, principalmente os mais credenciados?

P.J.-É uma dupla sangria de recursos. Primeiro o país despende recursos na formação de quadros técnicos. Logo a seguir é essa capacidade técnica que vai produzir desenvolvimento e riqueza noutros países. Portugal gastou recursos e não tem retorno, ou seja, não é gerado desenvolvimento.

E como se tem estado a verificar, muitos desses jovens já não pretendem regressar ao seu país ou à sua região, uns porque se adaptaram e foram bem tratados nos países receptores, outros porque sentem também uma enorme revolta com quem lhes negou oportunidades.

J.A.- Qual a vossa opinião sobre a aceitação de refugiados?

P.J.-Pensamos que um país que ao longo da sua História teve um caudal tão intenso de emigração não pode, sem mais nem menos, deixar de ser solidário com aqueles que agora procuram a Europa. Entendemos também que deveria haver uma política concertada da UE para este assunto quando, ainda para mais, a UE teve um papel decisivo na criação de problemas nalguns países que agora se encontram em desagregação.

J.A.-Que apoio presta a autarquia aos mais idosos?

P.J.-Tendo em conta a existência de duas instituições vocacionadas para essa área na nossa freguesia, a acção da Junta de Freguesia de Alpiarça acaba por não ser muito relevante. No entanto, particularmente nos três principais lugares (Casalinho, Frade de Baixo e Frade de Cima), temos desenvolvido iniciativas que vão de encontro aos interesses, particularmente das populações mais idosas, como a deslocação periódica da presidente da Junta para conversas ou sessões de esclarecimento ou o desenvolvimento de actividades lúdicas, uma vez que aquelas populações, por terem maiores dificuldades de deslocação e/ou de acesso à informação podem ficar isoladas ou alheadas da resolução de problemas que as afectam.

J.A.-Pedimos que nos faça uma síntese da sua freguesia.

P.J.-Alpiarça tem 96 km² e é um dos poucos concelhos portugueses com freguesia única. Situa-se no Vale do Tejo e grande parte dos seus solos agrícolas são de boa ou elevada produtividade, propícios para uma agricultura intensiva. A sua actividade económica assenta na agricultura (particularmente vinha, melão, milho, tomate e outras culturas para a indústria) e na agro-indústria.

O concelho é bem servido por equipamentos sociais, desportivos e de recreio.

Em termos de acesos, se é certo que a estrada nacional que a serve (EN118), se encontra congestionada, deve realçar-se que a ligação ao mais importante eixo rodoviário do país, a A1 (em Santarém), se encontra a cinco quilómetros (via A13, em Almeirim).

O acesso à rede ferroviária nacional (Linha do Norte) é feito na estação da Ribeira de Santarém / Santarém, a 7 quilómetros da vila.

J.A.-Qual o maior problema com que a sua freguesia se debate?

P.J.-Como ocorre um pouco pelo país e muito particularmente em freguesias do interior é, sem dúvida, a falta de emprego e, consequentemente, a baixa capacidade de fixação da população jovem que mais afecta esta freguesia.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?

P.J.-Para o corrente ano, uma das prioridades da Junta é a intervenção no seu património, um dos quais é um edifício legado e onde durante muitas décadas funcionou a principal escola do concelho, hoje com algumas salas utilizados para formação profissional e outras cedidas a associações da freguesia.

A outra prioridade é a continuação do apoio social a famílias muito carenciadas, com a realização de pequenas obras nas respectivas habitações, resolvendo problemas que, por vezes, se arrastavam há muitos anos.

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro da freguesia?

P.J.-Pretendemos que na nossa freguesia os habitantes vivam de uma forma mais harmoniosa, pelo que promovemos actividades em prol de uma convivência sadia, com a realização de actividades culturais e recreativas, na manutenção do nível do apoio social e na promoção das competências dos cidadãos e a melhoria da prestação dos nossos serviços; que sintam uma grande proximidade com a autarquia e os eleitos, pelo continuamos a desenvolver a acção a ‘Junta Próxima de Si’, onde se insere o ‘Atendimento de Proximidade’.

Nesse sentido e porque nem tudo tem que passar por iniciativas da Junta (e da Câmara), vamos continuar a apoiar associações que promovem, particularmente, actividades desportivas e culturais.

J.A.-Como é a situação financeira da autarquia?

P.J.-Desde o início do nosso mandato a preocupação tem sido no sentido da redução de custos em áreas não fundamentais, redireccionando os meios para as funções mais prementes, particularmente para apoios a pessoas e famílias com extremas carências e proceder a pagamentos a tempo e horas aos fornecedores de bens e serviços. Como resultado, continuamos a ter uma situação financeira equilibrada.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?

P.J.-O relacionamento entre autarquias tem sido muito sadio e de mútuo respeito, havendo uma enorme preocupação – tendo em conta os poucos recursos (humanos e financeiros) quer de um lado, quer de outro – para que não haja duplicação de esforços em idênticos assuntos, conseguindo-se, assim, a optimização dos tais recursos.

J.A.-Que tipo de envolvimento a população tem com a autarquia?

P.J.-Na nossa perspectiva é muito positiva, tendo em conta o feedback que temos a partir de diversos tipos de iniciativas que ao longo destes mais de dois anos de mandato desenvolvemos.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?

P.J.-A população da nossa freguesia sempre foi e continua a ser uma população lutadora, que não se deixa abater pelas dificuldades e sabe que tem da Junta de Freguesia (e da Câmara Municipal, estou certa) todo o apoio possível. Neste sentido a mensagem que queremos passar é que continue a ser igual a si mesma pois “o amanhã será sempre um novo dia, que o futuro está nas suas mãos e que será aquilo que todos nós quisermos que ele seja”.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?

P.J.-Tendo em conta que os choques entre as vidas familiar e a autárquica já eram expectáveis quando resolvemos aceitar este desafio e, depois, com os ensinamentos obtidos, associados à compreensão de todos os elementos do agregado familiar, tudo está ultrapassado, tanto mais que é com grande satisfação que nos encontramos a trabalhar em prol da população, associações e empresas da nossa Freguesia.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?

P.J.-Desejamos que o Jornal das Autarquias possa continuar a ser um elo entre, particularmente, autarcas e onde, ao serem dados a conhecer experiências e soluções encontradas para os mais diversos tipos de problemas, seja também um fórum de aprendizagem.

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