Dezembro 2016 - Nº 110 - I Série - Braga e Viana do Castelo - Inscrito no ERC sob o nº 125290  
Braga e Viana do Castelo
 

Entrevista ao Presidente da União de Freguesias de Santa Maria Maior, Meadela e Monserrate

José Ramos

 

J.A.-Qual a sua opinião sobre a situação política atual?

P.U.F.-Obviamente, como a maioria dos portugueses, vejo-a com sentimento de apreensão. Contudo a mudança de governação criou uma expectativa de mudança e o fim da austeridade. De qualquer forma a situação de instabilidade continua a pairar no nosso dia-a-dia o que em nada nos beneficia.

Ninguém pode estar optimista com a situação política e económica a curto e médio prazo. Obviamente a nossa situação depende também muito da situação europeia. E neste momento a instabilidade da Europa reflecte-se sobre Portugal, o desempenho, da nossa situação económica nomeadamente, na estabilização do défice e na melhoria da competitividade da nossa economia.

No entanto, é urgente legislação adequada e condições que atraia os investidores nacionais e internacionais, criando condições para um desenvolvimento sustentado, possibilitando assim combater o flagelo do desemprego.

No âmbito dos rendimentos e fiscalidade, criar mais rendimento disponível para as famílias mais desfavorecidas de forma a aumentar o seu poder de compra dos bens de primeira de necessidade.

J.A.-Que pensa sobre as novas medidas anunciadas por este governo em exercício?

P.U.F.-A ausência de agravamento de impostos para os rendimentos mais baixos, a reposição de alguns valores que vinham a ser retirados, um ligeiro aumento das pensões, contribui para alguma melhoria. De qualquer forma muito tem que ser feito pelas condições de vida das pessoas em sectores como a saúde a educação entre outras.

J.A.- Sendo essa região uma das mais fustigadas pelos incêndios, quais as medidas a adoptar, de futuro; para minimizar tais calamidades?

P.U.F.-Efectivamente, este verão estiveram activos incêndios de grande dimensão, especificamente, em Arcos de Valdevez, Ponte de Lima e Vila Nova de Cerveira. Outros de menor envergadura estiveram activos em freguesias vizinhas, apesar da proximidade, esta não foi uma realidade que afectasse a população da cidade de Viana do Castelo, logo, que afectasse a população da área da União das Freguesias de Viana do Castelo.

Não podemos andar a mover processos depois de detectar que os meios de combate não estão operacionais, no devido tempo tem que ser testados para serem utilizados se vieram a ser necessários.

É um flagelo preocupante, as entidades têm que, desde já, procurar envolver todos os intervenientes de forma a escutar opiniões e planificar o combate para 2017. Espero que o que aconteceu sirva para planear o futuro de modo a que sejamos mais capazes de combater o problema, evitando que a nossa floresta seja dizimada ano após ano.

J.A- Quais os auxílios (por parte do governo) que tem recebidos para ajudar a colmatar os efeitos causados, tanto a nível da autarquia como nível de particulares?

P.U.F.-O Município endereçou inquérito a todas as Freguesias para averiguação da área ardida e quantificação de prejuízos, como atrás referi, na área geográfica da União das Freguesias, felizmente não houve área ardida, julgo que este inquérito será para despoletar a ajuda tão divulgada na comunicação social.

J.A.- Em seu entender acha que as forças militarizadas deveriam estar preparadas para ocorrerem a estas situações?

P.U.F.-Naturalmente, nestas situações dramáticas, os recursos disponíveis, principalmente humanos, tendem a não ser suficientes para fazer face aos acontecimentos. Se pudermos canalizar todos os meios possíveis para auxiliar os Bombeiros, nomeadamente, os militares, desde que devidamente capacitados para tal, poderá constituir uma mais-valia no combate a este flagelo.

Acrescentaria desempregados e os beneficiários do Rendimento Social de Inserção, desde que coordenados por pessoas com competência, seriam também muito úteis e muitos deles, como é para uma causa nobre, não poriam qualquer objecção.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza e, estando essa freguesia inserida num dos distritos considerados de maior carência económica, como está essa autarquia a gerir esse problema?

P.U.F.-De há uns anos para cá vimo-nos confrontados com a necessidade de apoiar famílias afectadas pela actual conjuntura. Infelizmente Viana do Castelo foi uma das cidades que muito sofreu com o fenómeno desemprego, ainda mais agravado com o encerramento dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, atingindo famílias inteiras. Não temos um departamento, nem recursos humanos para esta área, contudo, tentamos sempre dar uma solução ao problema que nos chega. Temos apoiado famílias com o pagamento de serviços de primeira necessidade, distribuímos cabazes de alimentos e colaboramos com cantina social. Atendemos sempre que instituições como a Segurança Social, ou outras de cariz social, nos solicitam para apoiar alguém em situação de carência.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?

P.U.F.-Existem vários tipos de violência, não só física e não só em relações conjugais, e todos eles são igualmente graves. É em todos os casos um problema social preocupante para o qual devem ser criadas medidas de apoio. Contudo, o aumento da violência doméstica entre os jovens casais, na adolescência, quer como vítima, quer como agressor, é um sintoma do que o futuro não se afigura optimista. São situações complicadas cuja solução não é óbvia e que, com certeza, vai afectar a forma como os jovens vão gerir no futuro as suas relações pessoais e profissionais. Faz-nos pensar.

J.A-O que pensa sobre a violência gratuita que se está a gerar na nossa sociedade?

P.U.F.-Infelizmente vivemos numa sociedade marcada pela violência nas suas diversas formas: criminalidade, violência doméstica (transversal a diversos graus de parentesco), violência urbana, bullying, violação, pedofilia, racismo. Violência física, psicológica, sexual, verbal e até negligência. Para onde quer que nos viremos, transversal a todas as idades e estratos sociais. Não é um cenário animador, de todo. Apesar de haver uma maior visibilidade e consciência dos direitos, nomeadamente através de um maior sensibilização para pedir ajuda. A crise financeira gera problemas financeiros às famílias que muitas vezes acabam em actos de violência. Contudo, a crise económica não é o único factor. Questões sociais, culturais, políticas e religiosas estão na base dos acontecimentos. Contudo, mudar o comportamento social e acabar com as desigualdades não está ao alcance. Mas é imperativo criar medidas objectivas para minimizar esta questão, pelo bem-estar da sociedade actual e pelo futuro das nossas gerações. Talvez a educação seja um factor chave para isso.

J.A.-Qual a vossa opinião sobre a emigração dos nossos jovens, principalmente os mais credenciados?

P.U.F.-Actualmente, mostram as estatísticas que a emigração atinge números equiparados aos anos 60 e altura da guerra colonial. Números que não são reais, uma vez que não reflectem os que emigram e não alteram a sua residência e a liberdade de circulação também não permite uma monotorização dessas estatísticas. Era inevitável, não há empregos suficientes, os que há são mal pagos, deitando por terra qualquer perspectiva de carreira ou estabilidade. Há que procurar alternativas. É pena que o estado invista na educação dos nossos jovens e que depois não colha os benefícios de ver os seus conhecimentos aplicados no desenvolvimento no nosso país. Uma vez que o país não mostra sinais de melhora a longo prazo, estes vêm-se obrigados a procurar mais oportunidades e melhores condições no estrangeiro. Depois o país vê-se confrontado com a falta de pessoal qualificado em muitas áreas, e vai buscar recursos ao estrangeiro, como por exemplo médicos. É um contra censo enorme.

J.A.-Que apoio presta a autarquia aos mais idosos?

P.U.F.-Não é uma valência para a qual esta autarquia esteja dotada de recursos humanos ou infra-estruturas. No entanto, à luz dos problemas sociais, damos todo o nosso apoio às instituições da freguesia que o solicitem. Infelizmente, pelas imposições do Estado, quer em termos financeiros, quer em termos de contratação de recursos humanos, ficamos mais limitados para intervir em certas áreas, facto que tentamos combater com as parcerias que estabelecemos. A nível de Comissão Social de Freguesia, no âmbito da rede social, questões desta natureza ou de natureza social, são abordadas sempre que se justifique, tentando encontrar a melhor forma de intervenção.

J.A.-Pedimos que nos faça uma síntese da sua freguesia.

P.U.F.-Apesar dos serviços de primeira necessidade terem vindo a ser reduzidos por transferências para outras cidades, os residentes e visitantes sentem-se bem em Viana, a sua situação geográfica privilegiada, potenciam o turismo; temos segurança e qualidade de vida, apesar de todas as dificuldades que os portugueses atravessam

J.A.-Qual o maior problema com que a sua freguesia se debate?

P.U.F.-O maior problema que atinge a população da nossa freguesia é o desemprego. O distrito de Viana do Castelo tem um rácio desempregados vs densidade populacional bastante elevado, sendo que a área da União das Freguesias não é excepção.

A maioria dos desempregados são de longa duração e a taxa de emigração dos jovens também é significativa, não podendo esquecer a actual percentagem de população envelhecida. A situação dos ENVC teve um forte papel nesta questão e a actual conjuntura tem as suas consequências no comércio e pequena industria.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?

P.U.F.-Decorridos três anos de mandato, o nosso programa eleitoral no que concerne às suas grandes linhas mestras, encontra-se muito bem encaminhado para ser atingido. Contudo um autarca quer sempre fazer mais e a população alerta com as suas chamadas no dia. Portanto para conclusão é um trabalho infindável ao qual tem de ser dada uma atenção diária. Nos centros urbanos o Município tem para si grandes obras a Junta tem resolver todas as situações de primeira necessidade que o cidadão comum, o que utiliza e anda na rua detecta, o passeio, a iluminação, a sargeta, a limpeza um sem numero de casos que urge resolver ou encaminhar, vamos procurando colmatar estas questões para que a população se sinta satisfeita, verificando que a proximidade mesma com a União se mantem.

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro da freguesia?

P.U.F.-Ainda acredito que a União se vai desfazer, alterando a lei, retomando cada uma das Freguesias o seu próprio caminho. Entretanto avizinha-se novas eleições e, muito pouco tem sido feito pelo poder para abordar a questão, dando novamente voz às populações para escolherem o seu destino.

J.A.-Como é a situação financeira da autarquia?

P.U.F.-A situação financeira encontra-se estável, fruto de um planeamento que conduz a fazer obra, quando existe certeza que terceiros não vão ser prejudicados por essa decisão. Não temos qualquer dívida. Contudo fruto sempre desta contenção impede-nos de resolver situações que se vão arrastando por falta da componente financeira.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?

P.U.F.-Para além do estipulado na respectiva lei, são estabelecidos protocolos de colaboração nas mais diversas áreas ao longo do ano, para além da cooperação sempre que se entenda necessário.

Mantemos um diálogo permanente com o Município, apresentamos-lhe os nossos pontos de vista, uns são apoiados outros aguardam melhores dias. Isto faz parte do dia-a-dia do Presidente da Junta, uma luta constante pela defesa dos interesses da população que o elegeu.

J.A.-Que tipo de envolvimento a população tem com a autarquia?

P.U.F.-Estes três anos tem demonstrado um envolvimento muito positivo, dirigem-se a nós para tratar até de assuntos que não são da nossa competência, encontrando aqui o apoio que necessitam. Estamos sempre de porta aberta tentando ajudar, encaminhar e resolver as situações possíveis. Apesar da agregação das três freguesias mantemos abertos os 3 postos de atendimento, procurando desta forma que a população não sofra com a famigerada Lei 22/2002, de 30 de Maio.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?

P.U.F.-Temos procurado dar o nosso melhor no nosso dia, dentro das limitações que nos são impostas, para fazer desta uma freguesia de excelência, onde os direitos e deveres de todos sejam respeitados.

Levamos os vossos anseios até às últimas instâncias, nunca viramos a cara a um problema.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?

P.U.F.-Não é fácil, é uma vida que absorve muitas horas, com sacrifício procuro manter o melhor equilíbrio. A compreensão da família é muito importante para o meu desempenho, é ela a primeira prejudicada com a minha ausência. Agradeço aos meus mais próximos pela tolerância e compreensão que tem tido comigo.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?

P.U.F.-Votos de boa sorte e sucesso, nesta vossa missão que é levar a nossa voz, que, só por esta via algumas vezes chega aos cidadãos dando-lhes conhecimento dos problemas que um autarca de Freguesia sente no seu dia-a-dia.

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