Julho 2016 - Nº 105 - I Série - Aveiro e Viseu - Inscrito no ERC sob o nº 125290  
Aveiro e Viseu
 

Entrevista ao Presidente da Junta de Freguesia Tendais

José Carlos Fernandes Rodrigues

 

J.A.-Qual a sua opinião sobre a situação política atual?

P.J.-Depois de um periodo mais turbulento e de incertezas relativamente ao futuro politico do país, parece-me finalmente que estamos num periodo de calmaria.

O PS está a saber gerir com ponderação e sapiencia a sua passagem pelo governo, tentando cumprir os acordos bilaterais que assinou com o BE, PCP e PEV e que lhe permitiram o apoio parlamentar necessário para a posição que ocupa.

Obviamente que sendo um partido de Esquerda tem um cunho mais ousado e progressista que a Direita mais conservadora. A lei sobre a maternidade de substituição, que o Presidente da República decidiu vetar por ter sérias dúvidas sobre o acautelamento de interesses dos envolvidos é exemplo disso. E também aí o PS mostrou saber lidar com a adversidade, mantendo sempre um discurso de abertura a novas propostas sem entrar em crispação.

As boas relações que se estabeleceram entre estes dois poderes institucionais tem tudo para fazer o país evoluir e defender os valores e principios portugueses no estrangeiro.

J.A.-Que pensa sobre as novas medidas anunciadas por este governo em exercício?

P.J.- As freguesias nunca esperam muito do poder central por isso as medidas anunciadas não trazem muito de novo, mais ainda tratando-se de uma freguesia rural.

De referir que uma das medidas passa pela possibilidade de o Presidente da Junta poder estar a meio tempo ao serviço da freguesia, no entanto nas freguesias mais pequenas o seu vencimento sairá do orçamento da junta, ora numa freguesia como Tendais com poucos recursos, isso iria tornar mais difícil a concretização de algumas obras, pois os encargos com o vencimento do Presidente seriam pesados na despesa corrente da freguesia.

J.A.-O aumento de desemprego gerou muita pobreza e, estando essa freguesia inserida num dos distritos considerados de maior carência económica, como está essa autarquia a gerir esse problema?

P.J.-As possibililidades financeiras das autarquias são cada vez mais escassas e sendo a Freguesia de Tendais uma freguesia de poucos habitantes, mais diminuto é o contributo do Estado para fazermos face às nossas atribuições.

Tentamos apoiar os pequenos empresários residentes na freguesia, através de atribuição de alguns trabalhos.

No ambito da politica de emprego, a junta de freguesia, tem um papel subsidiário, sendo uma das atribuições e preocupações do municipio de Cinfães, à qual nos atendemos na prossecução e realização dos seus interesse, no ambito das nossas possibilidades.

J.A-O que pensa sobre a violência doméstica, que ultimamente tem aumentado drasticamente, no nosso país, e qual a causa/efeito?

P.J.-Apesar dos esforços das autoridades públicas, no sentido de desmistificar este crime, fazendo a população entender que qualquer pessoa, homem ou mulher, rico ou pobre, novo ou velho pode ser vitima, penso que ainda há um longo caminho a percorrer, que passa antes de mais, por uma politica preventiva e não apenas repressiva, que por sinal está muito aquém das expectativas, sendo em grande número os agressores que saem do tribunal apenas com pena suspensa. É preciso atuar nas escolas, desde que as crianças são pequenas para que entendam o alcance do respeito pelo outro, para que saibam lidar com a frustração de forma a serem adultos mais sensiveis e emocionalmente estáveis. É necessário ter presente que uma pessoa que exerce atos de violencia sobre outra (seja entre um casal, seja contra idosos ou contra crianças) é emocionalmente instável e tem uma visão distorcida da realidade e do que é o amor e a dignidade do outro. A intimidação, a chantagem e a cultura do medo, a par de atos de violência fisicos ou psicológicos nunca são forma de estar numa relação, que se deve alicerçar num vinculo de igualdade e de respeituo mutuos.

A expressão mais visivel deste flagelo é ainda a violencia contra as mulheres, mas não devemos esquecer que as crianças que assistem a estes atos também são, elas próprias vitimas, ainda mais indefesas e por vezes com uma imaturidade ( própria da idade) que não lhes permite compreender o alcance e a gravidade do que presenciam, podendo até, no futuro, tornarem-se adultos violentos, replicando os atos a que assitiram em crianças. Também os idosos pelas suas limitações e dependência, alicercada no aumento da esperança de vida, estão na mira de parentes sem escrupulos. A falta de emprego que levou muitos filhos a regressar a casa dos pais, proporcionou o aumento dos atos de violencia. Posto isto, se por um lado há factores que potenciam este crime (seja o consumo de alcool, drogas, a falta de emprego) por outro, é necessário assimilar que o mal é intrinseco da pessoa, que o comete, pois nem toda a gente em situação de crise, seja ela de que ambito for, reage deforma violenta.

J.A.-Qual a vossa opinião sobre a emigração dos nossos jovens, principalmente os mais credenciados?

P.J.-A tomada de decisão de sair nunca é fácil no entanto no contexto socio-económico atual torna-se a única alternativa para muitas pessoas, jovens e mais maduros. Temos vindo a observar no entanto que, apesar de necessidade de sair na procura de uma vida melhor, os jovens que saem não esquecem as suas raizes, e voltam com muita frequência ao sitio que os viu nascer. E digo isto com conhecimento de causa; maioritariamente, na freguesia de Tendais, assim como no restante municipio a mão de obra que existe, traduz-se em trabalhadores de contrução civil, que na falta de uma alavanca do sector no n osso país, emigram (e é necessário salientar que temos cinfanenses espalhados por todo o mundo neste ramo de atividade o que só pode ser visto como consideração da excelencia do seu trabalho). Também os jovens procuram novas formas de vida: ou saem para prosseguir os seus estudos superiores e já não retornam de forma permanente pois apesar das tentativas de descentralização do país, o norte continua muito esquecido e a ideia geral é que as oportunidades estão em Lisboa, ou se não chegam a sair para prosseguir os estudos, terão de o fazer mais tarde na procura de emprego.

Obviamente que esta realidade não é linear e já têm alguma expressão os que decidem ficar e lutar por cá pela sua vida.

Para cambater a migração é necessário apostar em politicas de incentivo ao emprego, de valorização do mercado de trabalho interno e capacitação dos trabalhadores.

J.A.- Qual a vossa opinião sobre a aceitação de refugiados?

P.J.-Acredito que em todos os aspetos da nosso vida devemos pautar-nos por um espirito de entre-ajuda e portanto no plano dos refugiados a minha opinião também é essa. No entanto devemos ser cautelosos com as pessoas que trazemos para o nosso país, no sentido de as acompanhar e não apenas “depositar” em território portugues, para que se tornem pessoas autonomas, com meio de sutento e dessa maneira contribuirem para o bem comum, mas também para, se for necessário, eliminar qualquer foco de instabilidade ou extremismo e portanto de ameaças para o nosso país que daí possam eventaulmente surgir. É essencial as pessoas entenderem que uma politica contra os refugiados não torna o país mais seguro. Se membros do Estado Islâmico quiserem vir para Portugal, que de acordo com as noticias tem servido de ponto de passagem para outros paises, eles virão de qualquer forma. O Daesh tem uma força financeira brutal, patrocionada por alguns dos países mais ricos do mundo.É claro que não se pode tapar o sol com a peneira e romantizar a situação: a probabilidade de juntamente com os refugiados, virem também terroristas é grande mas não será maior do que a vontade de um grupo terrorista organizado decidir investir contra os países europeus.

Suponho que nesta matéria, tal como nas demais é necessário calma e ponderação; não pode o Estado entrar numa histeria coletiva e abandonar pessoas como nós, que fugiram à morte, por vezes com situações violentissimas para lidar, como a perda de familiares e amigos, e abandona-los à sua sorte.

O nosso sentido de humanitarismo e altruismo é que nos deve guiar neste tema, sustentado obviamente, na prudencia e salvaguarda da segurança do nosso pais.

J.A.-Que apoio presta a autarquia aos mais idosos?

P.J.-A falta de médico de familia implicou que os idosos tivessem que se deslocar à sede do concelho para terem acesso a cuidados de sáude. Ora, abrangendo esta freguesia uma área de mais de 31km2 colocou-se um problema que necessitava de resolução: a manutenção de cuidados de sáude destes idosos que na sua maioria não tem transporte próprio, não beneficia de uma resde de transportes viável

J.A.-Pedimos que nos faça uma síntese da sua freguesia.

P.J.-A freguesia de Tendais situa-se na encosta norte da Serra de Montemuro, e alonga-se por uma área de sensivelmente 31 kms2. Ora, isto já permite entender a dispersão dos nossos habitantes, que se espalham por 16 povoações.

Estamos inseridos numa zona rural, onde ainda se cultiva a agricultura de subsistência; praticamente toda a gente possui um pequeno quintal ou horta para tirar da terra o melhor que ela dá e dessa forma conseguem poupar algum dinheiro ao mesmo tempo que consomem alimentos de qualidade superior.

A agricultura ocupa grande parte da vida dos nossos habitantes, assim como a criação de animais para consumo próprio ou venda.

Apesar de os idosos se traduzirem ainda numa grande da fatia da população, temos vindo a assitir à fixação de casais novos na freguesia, assim como o nascimento de algumas crianças, o que nos permite ter aberto um jardim de infância e uma escola primária que serve não só os alunos de Tendais mas também de outras freguesias do alto do Concelho. Os nossos idosos, assim como outros fora da freguesia, têm o apoio do Lar de Santa Cristina de Tendais, que tem já uma grande área de intervenção, agindo em regime de internamento e de apoio domiciliário. Além da melhoria das condições de vida dos idosos, que por falta de condições em casa ou problemas de sáude não poderiam continuar sozinhos, o funcionamento do Lar foi também um estimulo para o fomento de emprego na freguesia tal como o aviário e a estufa de produção e transformação de cogumelos.

Além desta dimensão geográfica,demográfica e económica, não posso deixar de referir a extensão e potencialidade turistica desta região, com paisagens naturais lindissimas e miradouros de cortar a respiração. O Perneval, o segundo ponto mais alto da Serra de Montemuro e o planalto de S. Pedro e o Ribeiro de Barrondes oferecem uma visão luxuriante da biodiversidade da freguesia, sendo pontos de grande interesse a visitar. Para terminar, a gastronomia é também um dos nossos pontos fortes. Os pratos tipicos da região variam das painças ao feijão com couves e carne de porco, cabrito assado em forno de lenha e o fumeiro totalmente produzido na região, sendo que os restaurantes da freguesia são eximios na sua confeção.

J.A.-Qual o maior problema com que a sua freguesia se debate?

P.J.-Somos assolados por vários: desde a fraca cobertura da Televisão Digital Terrestre, a cada vez menor cobertura de rede móvel até à falta de médico de familia. Trabalhamos para resolver os problemas com o maior afinco e interesse no entanto a sua resolução não depende apenas da boa vontade do executivo ou até do Municipio; são problemas de maior dimensão e por vezes que têm a ver com opções politicas tomadas, como é o caso do encerramento do Posto de Sáude de Tendais.

J.A.-Que outros problemas necessitam de maior intervenção?

P.J.-Neste momento continua a ser as obras de ampliação do Cemitério Paroquial um dos problemas que mais nos preocupa, acretitamos que no decorrer deste ano as obras possam recomeçar. O abastecimento de água a algumas aldeias é também um dos nossos objetivos, bem como a continuidade da recuperação dos acessos internos nas aldeias.

J.A.-Que perspetivas tem para o futuro da freguesia?

P.J.-Acredito que os tempos mais complicados já la vão. Os apoios públicos para a criação do próprio emprego juntamente com o financiamento comunitário no ambito de projetos agricolas a par da iniciativa privada, estão a alavancar a saída da crise. Neste momento estão já em funcionamento na freguesia, um aviário e uma estufa de produção de cogumelos ao mesmo tempo que começam a surgir pequenos negócios que são uma alavanca na criação de emprego nesta região.

Além disso, o potencial turistico da freguesia também é de enaltecer. Cada vez mais, somos visitados por estrangeiros que vêm à procura da beleza natural desta região

J.A.-Como é a situação financeira da autarquia?

P.J.-Neste momento, assim como de alguns anos a esta parte, temos uma situação financeira estável e sem dívidas.

Sofremos um pequeno embate nas nossas contas devido a problemas inerentes à atribuição das obras do Cemitério Paroquial, que entretanto foram resolvidas em sede própria, pelo que nos encontramos com saldo positivo. Temos consciência de que há muito trabalho a ser feito, mas tentamos gerir os fundos que nos chegam de maneira ponderada, de forma a não darmos um passo maior que a perna.

J.A.-Qual o apoio que a câmara presta às juntas de freguesia?

P.J.-Temos com a Camara Municipal um acordo de delegação de competencias que trás obviamente uma compensação financeira que é cumprida pelo Municipio sempre com rigor e pontualidade.

Na necessidade de mão de obra ou material que não disponhamos ou cujo encargo finaceiro seja pesado para o nosso orçamento, sabemos que podemos contar com o auxilio da autarquia.

J.A.-Que tipo de envolvimento a população tem com a autarquia?

P.J.-Estando esta freguesia inserida numa zona rural, apesar da sua dimensão, que é bastante dispersa, todos nos conhecemos e todos estamos pontos para estender a mão a um vizinho em aflição. Ora, também isso acontece nas relações estabelecidas entre o Executivo da Junta assim como na sua Assembleia.

J.A.-Que mensagem quer enviar à população da sua freguesia?

P.J.-Naturalmente uma mensagem de esperança, continuamos todos os dias a trabalhar para fazer mais e melhor por esta freguesia que é nossa, ainda que como é óvio não conseguimos resolver todos os problemas. Mas estaremos sempre disponiveis para ouvir, para dialogar e aceitar sugestões, desde que o objetivo seja melhorar o que possa estar menos bem.

J.A.-Como consegue gerir a absorvente vida de autarca com a vida familiar?

P.J.-As vezes não é tarefa fácil, conseguir gerir as duas componetes, a de autarca e a familiar, no entanto com algum esforço e com o apoio compreenção da familia é possivel minimizar as nossas ausências muitas vezes em casa junto da família.

J.A.-Que mensagem quer deixar ao Jornal das Autarquias?

P.J.-A finalizar quero deixar um voto de gratidão ao Jornal das Autarquias, pois continua a ser um elo de ligação entre os autarcas e os cidadãos, contribuindo assim para um maior conhecimento da realidade de cada região.

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